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valerie solanas: a artista que quase matou andy warhol



valerie solanas ganhou notoriedade - e infâmia - em 1968, quando entrou na famosa factory e atirou 3 vezes em andy warhol. warhol sobreviveu, e não demorou muito pra transformar a tragédia em espetáculo, mas sempre acho doido pensar que se valerie tivesse sucedido, ela teria mudado consideravelmente a história da arte do fim do século XX. ela mesma dizia considerar imoral o fato de ter errado a mira. para ela, andy warhol - com sua constante exploração de corpos femininos, desrespeito a suas modelos e musas, e compensação monetária injusta a todos que trabalhavam com ele - era a representação viva dos danos causados à arte pelos homens.


ainda assim, foi andy warhol que ela procurou, três anos antes da fatídica tentativa de assassinato, para tentar produzir sua peça queer feminista, up your ass. apesar de desprezar o mundo patriarcal das artes, valerie entendia que às vezes era necessário jogar o jogo, e warhol era um dos grandes jogadores do momento.

solanas foi uma das feministas mais fora da curva dos anos 60 e 70. ao contrário de outras escritoras e teóricas do feminismo e da grande maioria dos artistas que frequentavam a factory, em sua maioria de famílias estáveis e privilegiadas de classe média alta, valerie havia crescido em família instável num lar onde sofria abuso sexual, teve dois filhos antes dos 15 anos e, após largar a faculdade de psicologia - ambiente que ela considerava machista e opressor - alternava a vida nas ruas, se prostituindo, com períodos em hoteis como o chelsea, onde também moravam outros artistas e músicos da contracultura.


além da peça que ela queria que warhol produzisse, solanas escreveu um dos mais curiosos manifestos feministas do século XX, o SCUM - society for cutting up man (sociedade para cortar homens). o manifesto é ao mesmo tempo um manual irônico para que se eliminem os homens de todas as esferas de produção humana (política, arte, cultura, ciência, economia etc) e uma aparente paródia dos escritos de freud.

ao longo do manifesto, solanas descreve como os homens corromperam e destruíram todas as instituições humanas e a única maneira de resolver o problema é aniquilando-os todos. ela também explica, de maneira ácida, como a raiz de todos os problemas da humanidade é o fato do homem ter inveja da mulher, o que o leva a constantemente tentar compensar sua inferioridade com violência e, basicamente, burrice. solanas declarou, na época, que o manifesto não deveria ser lido de maneira literal, mas mesmo assim recebou os rótulos de feminista radical - categoria que ela rejeitava por completo - e misândrica.


muito do que solanas dizia era era espelhado em suas próprias experiências e história. a artista descrevia o homem das artes como um usurpador de ideias criativas das mulheres a seu redor, sendo ele mesmo incapaz de imaginar ou criar qualquer coisa em seu triste estado de masculinidade.


sua curta relação artística com warhol refletiu perfeitamente essa perspectiva: ele a levou a acreditar que sua peça seria produzida, e por fim a dispensou e usou falas do roteiro de solanas em um de seus próprios filmes, sem creditá-la. warhol ainda roubou o único manuscrito que valerie tinha de sua peça, que está até hoje no museu andy warhol, em pittsburg.


curiosamente, solanas já o havia avisado: “você pode ser um homem auxiliador, mas não significa que você tá na lista dos que vão escapar”.


não apenas não estava na lista de escape: warhol seria o primeiro (e único) alvo de valerie solanas, que se entregaria no mesmo dia e, em breve, seria diagnosticada com esquizofrenia, descreditada por seus colegas e abandonada por seus poucos amigos.

andy warhol sofreu sequelas pelo resto da vida após o ataque, e solanas foi internada num hospital pisiquiátrico antes de ser enviada a uma casa de dentenção para mulheres. é impossível negar que a artista cometeu um crime e sofria com instabilidade mental, mas é uma pena que a história de valerie solanas tenha sido considerada, por tanto tempo, uma nota de rodapé na biografia de andy warhol - o scum manifesto é divertido e absurdo, quase um clube da luta feminista, mas acabou se tornando um token tragicômico, uma memória de uma época e de uma artista que foi tachada de louca e misândrica e, portanto, não merecedora de ser levada a sério.

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