• melody erlea

a política do vestir

lembro de dois momentos das minhas aulas de jornalismo de moda na pós:

em primeiro lugar, a professora - jornalista experiente de moda - que insistia em chamar a grande tendência de 2014, normcore, de "os normdroms".

em segundo lugar, um rapaz que entrevistei pras aulas da mencionada professora normdroms, que nos pediu a produção de um vídeo curto sobre moda de rua. esse rapaz era um dos presentes numa batalha de rap na av. paulista, tava lá pra assistir os amigos e curtir a náite, e mesmo se eu o encontrasse no restaurante do terraço itália comendo um, sei lá, escargot, eu saberia instantaneamente que ele era um ouvinte de rap. a roupa que ele vestia era quase um uniforme do rolê, a calça mais larga, a camiseta solta, o moletom de capuz e o boné de aba reta (com grandes fones de ouvido encaixados por cima). ele afirmou veementemente que não pensava no que ia vestir e não queria transmitir mensagem nenhuma através de suas roupas - estava vestido daquela maneira porque era como ele gostava de se vestir, e fim.

achei curioso porque √© claro que ele estava vestido do jeito que ele gostava, n√£o h√° d√ļvidas sobre isso, mas a falta de consci√™ncia sobre seu pr√≥prio ambiente e o estilo predominante nele me pareceu completamente incoerente. eu estava l√°, no meio de um monte de gente envolvida com o mundo do rap, que costuma retratar tem√°ticas de import√Ęncia social e pol√≠tica, ou seja, rodeada de gente que, imagino, se envolve, pensa, discute e analisa quest√Ķes sociais como representatividade √©tnica, distribui√ß√£o de renda, qualidade de vida dos bairros perif√©ricos de s√£o paulo, viol√™ncia policial, ou seja, gente que pensa e que vai al√©m. mas mesmo assim, moda passava por esse rapaz como algo f√ļtil, desconectado da realidade social e, inclusive, desconectado da "tribo" com a qual ele se identificava - e a gente sabe que o maior sinal de pertencer a uma tribo √© seguir um dresscode.

outras pessoas que entrevistamos na batalha de rap disseram, quando perguntadas sobre meninas que gostam de shopping e de compras, que essas mo√ßas eram "padronizadas" e que seguiam propagandas sem se questionar. curios√≠ssimo, j√° que ao nosso redor dava pra notar, tamb√©m, uma clara padroniza√ß√£o das roupas, e n√£o est√°vamos num shopping. as meninas que entrevistamos dentro dos shoppings, por outro lado, pareciam estar mais cientes de que as roupas que vestiam transmitiam mensagens, e procuravam escolher elementos que as diferenciassem, que as deixassem menos √≥bvias. elas falaram apenas da influ√™ncia que nossos gostos pessoais - m√ļsicas, lugares que frequentamos, etc - tem no que vestimos e disseram que a moda √© uma express√£o cultural. nenhuma delas chegou a mencionar o poder social da roupa, mas me pareceu que elas j√° estavam um passo a frente do que a galera que t√£o prematuramente as chamou de padronizadas sem sequer olhar ao redor.

tudo isso eu contei pra ilustrar algo que sigo comentando nos meus textos aqui no blog: moda n√£o √© f√ļtil. moda, sabemos, √© uma representa√ß√£o clara de inst√Ęncias sociais como g√™nero, poder aquisitivo, idade, orienta√ß√£o sexual, etnia, nacionalidade, religi√£o, repert√≥rio cultural, e quando nos desassociamos da moda e a categorizamos como f√ļtil, estamos tamb√©m recusando um olhar interior atento, e uma reflex√£o sobre a posi√ß√£o que ocupamos na sociedade. roupa √©, para al√©m de tudo, pol√≠tica - ainda mais se pensarmos que pessoas s√£o estereotipadas, objetivadas, violentadas, atacadas, ridicularizadas e assassinadas por causa de suas roupas, seja uma minissaia ou uma burca.

quando ouvimos falar que nossa roupa é nossa identidade, não é só no sentido de que a roupa reflete nossos gostos, preferências e humor. roupa é, mesmo, nossa identidade social. não é coincidência que a parcela da população que mais se beneficia do privilégio de não se importar com roupa são aqueles que tem sua posição social mais estabilizada: homens. normalmente héteros. normalmente brancos. homens brancos héteros não apenas podem viver sem pensar em roupa, eles podem literalmente passar a vida se vestindo como uma criança de 12 anos, e ninguém os julga. quase toda pessoa branca do gênero masculino (cis, claro) dos 8 aos 60 anos se veste do mesmo jeito. parece ridículo chamar isso de privilégio - porque taí um privilégio que eu não quero pra mim, o de usar roupas feias a vida inteira - mas é o que é.

cada vez que voc√™ se veste e n√£o precisa pensar se vai ser assediada no caminho pra faculdade, significa que voc√™ tem um privil√©gio - seja o de ser homem, seja o de viver e estudar em uma regi√£o onde voc√™ se sente segura. cada vez que voc√™ se veste e n√£o precisa se preocupar com o que os outros ir√£o cochichar sobre sua roupa, isso √© um privil√©gio - seja o de ser homem, seja o de ser uma pessoa apreciada por seu estilo a ponto de n√£o precisar se preocupar. cada vez que voc√™ se veste sem precisar decidir se aquela roupa te valoriza, se te faz parecer gorda, ou baixa, ou vulgar, significa que voc√™ tem um privil√©gio - seja o de ser homem ou de estar de acordo com padr√Ķes de beleza. poha, gemt, at√© trabalhar em ambientes que permitam que eu me vista da maneira que voc√™s v√™em retratada nesse blog √© um privil√©gio.

moda √© pol√≠tica. e √© nossa responsabilidade passar a ver a moda sob esses olhos, e n√£o apenas com as lentes das tend√™ncias de consumo. moda serve pra desafiar discursos dominantes, padr√Ķes de beleza e estere√≥tipos. quando falamos de moda feminina, que √© t√£o facilmente dominada pela imagem de corpos, bocas, cabelos perfeitos e tend√™ncias ef√™meras, roupa deve servir pra nos lembrar de que nosso corpo √© importante, merece ser valorizado e considerado bonito por n√≥s mesmas, e n√≥s temos as ferramentas para fazer isso - seja usar maquiagem, pintar a unha ou usar um par de sapatos que consideramos magn√≠ficos.

(todas as imagens desse post são de roger minick, de sua série sightseeers, em que ele fotografou turistas durante os anos 80. as pessoas e vestimentas retratadas nas fotos em nada tem a ver com meus posicionamentos - achei as fotos maravilhosas e quis usá-las porque acho que as roupas retratadas representam muito bem quem essas pessoas são, de que época são, que tipo de vida tinham, e isso ilustra muito bem o que eu quis dizer - moda é nossa identidade social)

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