• melody erlea

a violência racial em três anedotas históricas


stan wayman, 1957

na segunda metade dos anos 50 os eua iniciaram o processo de integração das escolas. em 57, na carolina do norte, 5 alunos negros foram transferidos para uma escola de brancos. entre elas, dorothy counts, que foi levada pelo pai ao primeiro dia de aula mas não pode se esconder da multidão de repórteres, fotógrafos e, principalmente, pais e alunos protestando contra sua presença na escola.


wayman fotografou sua chegada e também momentos de seu dia na escola, em que dorothy era ridicularizada, assediada, xingada e agredida. seu pai passou a receber telefonemas ameaçadores e a família era alvo de pedras nas ruas.

stan wayman, 1957

após 4 dias, dorothy voltou pra sua escola antiga porque seu pai estava com medo pela sua segurança física e mental.


dorothy tem hoje 76 anos e dedicou sua vida à educação inclusiva e lutou por políticas de integração e pelos direitos civis de crianças e adolescentes nas escolas americanas.


em 2010, aos 68 anos, ela recebeu UM pedido público de desculpas de UM dos então adolescentes que a assediaram em seu primeiro dia na escola.


UM.

stan wayman, 1957

um pedido de desculpas. em 60 anos ela recebeu UM PEDIDO DE DESCULPAS.


***

1960

os sit-ins eram tipos de protestos organizados por negros em busca de igualdade e direitos civis nos estados unidos. consistiam em grupos de pessoas negras que entravam em estabelecimentos permitidos apenas para brancos - restaurantes, lanchonetes e cafés, principalmente - e lá se sentavam.


nada de violência, agressividade, contato físico. apenas entrar no estabelecimento e se sentar em silêncio, aguentando as violências físicas e verbais do público branco que por ventura (e quando eu digo por ventura quero dizer sempre sem exceções) pudesse se incomodar com a presença deles.


o protesto era feito em grupos, assim os protestantes garantiam que conseguiriam uns proteger e ajudar aos outros.


crazy dion diamond, rapaz negro que vemos na foto acima, de 1960, numa lanchonete cercado de homens brancos, era o que a gente chama de CARA PICA. o cara era foda. ele planejava os próprios sit-ins SOZINHO.


cês imaginam os culhões, as tetas de aço, que era pra esse cara ir sozinho fazer isso? o perigo que ele tava correndo?


e não é que nem a gente, que pega um uber e já avisa meio mundo em caso de algo dar errado. ele não falava pra ninguém. ninguém tava avisado. nem os pais dele sabiam que ele fazia esse tipo de protesto - descobriram quando começaram a receber ligações dizendo "cês tão ligados que seu filho passou a noite na cadeia, né?"


ele foi preso tantas vezes que em uma das últimas os policiais disseram pros outros presos que facilitariam a vida de qualquer um que desse um jeito no crazy dion. absolutamente nenhum dos prisioneiros aceitou a oferta.

ó a carinha linda dele hoje em dia, bem fofo.


***

johnny jenkins, 1957

um tempo atrás postei no instagram uma coletânea de imagens de mulheres lutando, cada qual da sua maneira, contra o patriarcado e a hegemonia branca. essa foto acima foi uma das mais comentadas: muitas mulheres disseram que admiravam as fotos mais agressivas, mas que seriam parte da luta com livros, educação e protesto pacífico.


a foto é linda mesmo. em primeiro plano, mulheres marchando juntas, todas com seus livros e seu ódio. mas vejam bem o perigo de uma foto descontextualizada: as mulheres brancas dessa foto não estão ao lado de elizabeth eckford, a moça negra em destaque. as moçoilas pálidas estão marchando e gritando CONTRA a presença de elizabeth em sua escola para brancos.


em 1957, elizabeth e mais 8 alunos negros do arkansas foram transferidos para a escola little rock - parte do processo de integração das escolas nos eua.  os 9 adolescentes combinaram de chegar juntos, mas o local de encontro foi mudado de última hora e elizabeth não soube da atualização - chegou sozinha e enfrentou, com essa poker face bem plena, a raiva dos branquelos e das branquelas todas.


pra mim, feminismo desassociado da luta antirracista é um feminismo vazio. nós, mulheres brancas, embora na condição de mulheres, temos muitos privilégios assegurados desde muito tempo. olha bem pro olhar de raiva pura da moça branca à direita, segurando uma carteira preta. olha bem. e imagina que, nós, lá em 1957, poderíamos ser essa mulher.


lembrar nossa posição na luta feminista é importante, ouvir as mulheres não-brancas é importante. mas pra isso precisamos entender, sempre, que podemos ser brancas e feministas, mas na lógica da nossa sociedade, somos, em primeiro lugar, atuantes da opressão sistematizada de uma comunidade que enxerga a pele clara com mais carinho, sempre.


a própria elizabeth eckford diz: "se nós enxergarmos com honestidade nosso passado dolorido, porém compartilhado, então poderemos ter reconciliação"

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