• melody erlea

de run dmc e seu adidas a fino durap e seu le cheval: o rap e a moda


uma vez tive que entrevistar uma galera numa batalha de rap na paulista pra um vídeo e lembro nitidamente de um rapaz que tava to-di-nho trabalhado na hip hop aesthetics, com o boné levemente torto com fone encaixados por cima, a camiseta e a calça larga acumulando no tornozelo logo acima de um tênis espaçoso. mas ele afirmava veementemente que não tinha nada a ver isso aí de moda e que ele não pensava em nada pra se vestir e não se inspirava em ninguém além dele mesmo.


ó que loucura? lembrando disso agora não posso deixar de lembrar, também, de run dmc e seu hit "my adidas", que pelo menos tinha a elegância de afirmar que moda, marca, estilo são tão importantes pro hip hop que até música viram. e, no caso do run dmc, não é qualquer item de moda - são os tênis adidas.

porra, foram esses adidas que subiram no palco do live aid. esse par de tênis acompanhou shows ao redor do mundo. esse adidas continuou firme e forte mesmo depois de quase ter sido roubado. esse tênis apareceu na tv e no cinema!! é história demais pra um único par de sapatos. e eu não precisei pesquisar muito pra descobrir tudo isso - tá tudo ali, na letra da música.


não é necessariamente sobre o tênis - embora haja, claro, um orgulho na posse desse objeto de desejo de marca. mas é mais sobre a relação que aquele cara tem com o espaço pelo qual circula enquanto está vestindo o tênis.


pulando lá de nova york aqui pra são paulo, penso imediatamente no fino durap, que em "requebrada", música do novo disco de mesmo nome que acaba de estrear, tá falando justamente sobre isso: o espaço pelo qual ele circula e as relações que cria nesse espaço. e, assim como run dmc ilustra suas caminhadas através de seu adidas, fino nos apresenta ao seu velho le cheval de solas gastas - que o acompanha pelas experiências nas vielas até sair pro mundo, onde ele descobre que a emoção do primeiro nike é foda.


essa progressão do le cheval pro nike é muito foda: ao mesmo tempo que as duas marcas só são importantes porque o acompanham em sua caminhada e carregam aprendizados, elas também representam uma hierarquia no consumo de marcas-desejo de uma comunidade, e parece que do le cheval pro nike agora estamos um degrauzinho acima (mesmo que isso envolva muito tiro e muita droga). igualzinho o adidas do run dmc.

a nike e a adidas, nas duas músicas, tão aí lembrando a gente sem descanso que existe o "ter" em oposição ao "não ter". mas nos dois casos, é uma ostentação do ter quase ingênua - tem a emoção de ter conseguido finalmente comprar o tênis da marca foda, mas mais importante do que ter tido acesso a esse bem de consumo, é o fato de que essa compra passa a ser uma companheira e, também, testemunha de todas as tretas e todas as felicidades de quem tá calçando.


não é só um adidas ou um nike.


é um adidas e um nike que passaram por todo esse rolê, toda uma experiência, todo um caminho.


e vai na contramão da cultura geral de hip hop americano de ostentação exagerada de fantasia, carros, obras de arte, animais exóticos, hotéis de luxo - uma cultura que usa o consumo de marcas e bens como a porta da área vip exclusivíssima de uma festa na qual você nunca vai entrar.


fino, assim como run dmc, usa a marca pra ilustrar um clubinho do qual outros querem - e podem - fazer parte. ele não sai do le cheval para o nike pra comparar o valor de quem usa cada um desses tênis - mas sim pra nos aproximar das experiências e corres de um cara vivendo até conseguir comprar um nike.


ter coisas é existir na sociedade, mas viver e expressar coisas é um existir muito mais humano - e é isso que fino durap e run dmc compartilham com a gente.