• melody erlea

high fidelity está prestes a influenciar mais uma geração

se houvesse um grande motivo pra existência do formato atual desse blog, esse motivo com certeza é high fidelity, o filme, e toda a obsessão por música pop que ele retrata.


(óbvio que não existe um grande motivo, e sim vário motivos de tamanhos variados, mas se eu tivesse que identificar um momento na vida que moldou minha relação com cultura pop e despertou minha vontade de pesquisar e aprender mais sobre ela, certeza que foi quando vi esse filme pela primeira vez)

eu assisti high fidelity e tinha certeza que cresceria pra ter uma carreira de sucesso como vendedora em loja de discos, sendo amarga e antissocial enquanto escutava música boa e usava roupas legais. acabou que cresci pra ser amarga e antissocial, mas na era do mp3 e do spotify, então faço o que posso com a ferramenta que foi concebida à minha geração: a interwebs.


deu que não apenas sou obcecada por cultura pop - sou obcecada também pelos formatos obsoletos dos quais tive um breve vislumbre antes de eles se tornarem antiquados. eu quero consumir cultura pop como se fazia nos anos 90, eu sou uma dessas indiezinhas retrô 90s, bem típica.

é justamente essa a premissa do remake de high fidelity, que vai estrear como série pela plataforma de streaming hulu dia 14 de fevereiro do ano que vem: a mesma história, mas modernizada pra ser verossímil com o zeitgeist da era da internet. a série vai se passar nos dias atuais, então os personagens, que seguem trabalhando numa loja de discos, não são apenas vendedores de disco apaixonados por música - eles são vendedores de disco apaixonados por música e por nostalgia pop. sei lá, me parece muito SQUAD GOALS e ao mesmo tempo tão clichê; espero mesmo que as roteiristas consigam brincar com esse tipo de sentimento confuso que esse arquétipo pode causar.


rob, que tanto no filme quanto no livro era uma rapaz insuportavelmente egocêntrico ainda que gatinho e com um ótimo gosto musical, vai ser reinterpretado como uma mulher, zoe kravitz QUE SONHO!


no livro, escrito por nick hornby em 1995, rob é um machistinha desses que hoje em dia a gente transforma em meme, escroto demais. no filme suavizaram um pouco, mas não consigo deixar de pensar: aquele narcisismo, aquela obsessão pela ex, aquele acreditar que ele é a melhor coisa que já aconteceu na vida dela e ao mesmo tempo aquele derrotismo, aquele achar que todos os problemas dele foram causados por outros mas não conseguir enxergar as próprias decisões - tomadas por ele, e mais ninguém - e lidar com as consequências... ai, que preguiça, não parece o típico hómi fazendo homice?

vai ser interessantíssimo ver todas essas características de peso tão negativo numa personagem mulher - o egoísmo, o narcisismo, a arrogância musical... as roteiristas da série disseram que a essência do personagem continua a mesma, e eu tô mega ansiozzy pra conhecer essa rob: imagino uma mulher direta, que fala o que pensa de um jeito tão objetivo que é lida como rude e fria, focada em negócios (ela ainda será dona de uma loja de discos, como no livro e no filme), e, claro, escondendo a vulnerabilidade lá no fundo bem inacessível. tô bem curiozzy também pra ver como vão retratar a vida sexual dela - já que no filme rob, que está em uma pausa do seu namoro monogâmico, flerta bastante e chega a se encontrar com uma ex e uma jornalista que tem uma crush nele, mas só chega a pegar mesmo a marie de salle, cantora independente pra quem ele paga um pau.


no filme rob objetifica e culpa suas ex por seus problemas atuais e dá em cima de quase todas as mulheres que cruzam seu caminho durante o período retratado no filme, mas tenta constantemente fazer sua ex, laura, se sentir mal por estar em um relacionamento estável com um cara que ele não aprova. rola um slutshaming leve e tudo. me pergunto se na série a rob terá esse tipo de relacionamento com seus ex e seus crushes, não no sentido do slutshaming mas no sentido de culpá-los por seus problemas, não enxergar suas próprias falhas ou não ter intenção de mudá-las, e será, ó zizuis, que ela vai fazer listas pra falar merda dos caras? porque, honestamente, eu tô muito afim de ver os ex dela listados em top 5 do mais escroto pro 5º mais escroto, imagina?


o estilo da nova rob é preguiçoso e confortável como o do rob do filme, com itens clássicos como calça jeans reta, camisetas, jaqueta de couro, camisa aberta por cima de regata, botas pretas e tênis com meia na canela. tudo com aquela carinha de vintage, de comprado no brechó, de foi-da-minha-mãe-nos-anos-90. o típico visu do indie cansado da vida porém ainda com leve desejo de impressionar via referências obscuras em seu jeito de se vestir.

AMO que mantiveram uma estética masculina no geral, pontuada por detalhes femininos como uma correntinha dourada e uma minissaia plissada, itens que a personagem usa mais de uma vez! amo gente fictícia que #repeteroupa, torna tão mais verossímil e identificável, muito mais fácil da gente se relacionar e criar empatia.

reparem que ela usa a mesma camiseta da dickies que cusack usou no filme, acho tão legal esse tipo de cuidado e homenagem. dickies é uma marca de roupa bem genérica dos estados unidos, e é óbvio que rob teria uma camiseta dessa: provavelmente comprada em brechó, completamente sem significado e, precisamente por isso, facilmente transformada em ícone por esse personagem tão singular. a marca não é pra ser ostentada, mas a estética clássica, retrô, com cores primária é cool e simples o suficiente pra rob, que quer passar desapercebida mas também causar um leve impacto, quase um incômodo, tipo a gente chegar em casa depois da festinha e pensar "mano e aquela mina com a camiseta da dickies?" sem saber se xonamos ou se torcemos o nariz (xonamos, claro)

além de zoe no papel de rob, barry, personagem de jack black no filme de 2000, vira cherise no remake, uma mulher engraçada e enérgica interpretada por da'vine joy randolph, e o dick do filme vira simon, um gay tímido a procura do amor da vida dele, interpretado por david holmes. os dois trabalham pra rob em sua loja de discos. amei essa atualizada nos coadjuvantes - rob, cherise e simon são duas mulheres negras e um cara branco gay, enquanto no filme original eles eram três caras brancos e héteros (tudo bem que os personagens eram ótimos, mas que dá um alívio ver que esses personagens ótimos possam ser colocados em corpos e estilos de vida diversos, ô se dá).

lisa bonet como marie de salle no filme high fidelity

zoe kravitz, a atriz principal, tinha 12 anos quando o filme original saiu - a mãe dela, lisa bonet (diva maior rainha do mundo), interpretou marie de salle no filme, cantora com quem o protagonista tem um breve affair. só de pensar que esse filme é de 19 anos atrás e que a filha pré-adolescente de uma das atrizes da versão original hoje em dia é uma adulta com idade o suficiente pra ser a protagonista da história... é velhice que chama, né, isso que está me acometendo?

e vamos lembrar que anteontem lisa bonet era uma adolescente e tava usando roupas incríveis na virada dos anos 80 pros 90 em the cosby show, no papel de denise huxtable, a filha rebelde do bill cosby no programa. ela cresceu, teve a zoe kravitz, participou de high fidelity (sem contar outros filmes rodeados de polêmicas tipo angel heart), separou do lenny kravitz, casou com jason momoa, e a zoe kravitz taí agora toda adulta fazendo remake de filme em que a própria mãe atuou. cê tá loko, a roda viva não para.


essa história de lisa bonet no cosby show me faz lembrar imediatamente de uma cena do filme high fidelity em que jack black zoa john cusack por estar usando um "pulôver de bill cosby" algumas cenas antes de conhecerem a personagem de lisa bonet, marie de salle. o filme tem várias outras piadas internas e referências legais às vidas pessoais dos atores, sem contar participação de bruce springsteen e outras bandas e artistas musicais menores, mas importantes na cena da música alternativa. vários desses fatos legais sobre o filme tão nesse link aqui, e eu sugiro mesmo a visita - porque pra eu falar de todas as curiosidades e maravilhosidades desse filme teria que rolar um outro post, esse aqui já não tá mais comportando tanta referência pop.


no meu instagram também tá rolando posts sobre o remake de high fidelity, meu amor pela zoe kravitz e minha ode à lisa bonet, cola lá!