• melody erlea

labirinto: as coisas não são o que parecem



acho que a coisa mais marcante do filme labirinto é o david bowie no papel de jareth. acredito que, tivessem escolhido outro ator, o filme ia ter atingido um certo nível de adoração cult que tantos outros filmes de fantasia dos anos 80 alcançaram, mas nada no nível que esse filme conseguiu. um filme que une aventura infanto-juvenil e música alternativa, mitologia lúdica e lenda do rock, fantasias de criaturas fantásticas e fantasias de ser levada pelo bowie para o castelo dos duendes e fazer coisas inomináveis num texto sobre um filme censura livre.


mas não é so de david bowie que vivem as grandes histórias (embora um mundo em que todas as grandes histórias tivessem david bowie seria, sem sombra de dúvidas, um mundo melhor), e labirinto sobrevive porque, além do casting legendário, ele contém camadas de interpretações e lições que parecem ter sido pensadas pra funcionar de uma maneira meio inception: uma sementinha de ideia plantada na minha cabeça infantil, que se reforça cada vez que eu revejo o filme (mais vezes do que dá pra eu admitir sem ser julgada), e que floresceu de muitas formas na minha vida adulta.



pra mim, a simbologia com mais camadas é a ideia de que "as coisas nem sempre são o que parecem por aqui". ela serve pra dizer que a gente não deve se levar por ideias pré-concebidas das coisas (tipo quando a sarah vai resgatar uma fada, achando que fadas são boas, e leva uma mordida), que não devemos julgar pela aparência (tipo no caso do ludo, um monstro gigante, peludo e assustador que é um docinho e só quer ter amigos), que às vezes encontramos soluções onde achamos não haver nada (se olharmos com atenção e cuidado), e que nossas concepções do que é justo podem mudar se mudarmos nossa base de comparação.



tanta coisa em UMA fala desse filme que tem tantas outras falas, com tantos desdobramentos possíveis.


o momento mais impactante, acredito, de entender que as coisas não são o que parecem, é aquela hora em que, após ser envenada pelo pêssego do rei dos duenes que recebe de hoggle, sarah esquece o que estava fazendo (no caso, APENAS indo resgatar seu irmão neném das garras do duendes que o sequestraram e que o terão por toda a eternidade caso sarah não resolva o labirinto mágico e chegue ao castelo do rei dos duendes num período de tempo que é ao mesmo tempo aleatório - 13 horas? que relógio é esse que tem 13 horas, que coisa mais x - e cheio de significados - o número 13 afinal tem toda uma lista de superstições e lendas atreladas e ele, escolhe uma de sua preferência e se apega a ela como justificativa). depois de dançar num maravilhoso baile de máscaras do séc XVIII com david bowie O PRÓPRIO, sarah vai parar em seu quarto, rodeada de brinquedos, maquiagens e livros, e sente um grande alívio de ter finalmente encontrado o que tava procurando - suas coisas.


quem convence a coitada da sarah que são essas coisas que ela procura é uma senhorinha do lixão, que fica jogando as coisas todas em cima dela dizendo "it's all here, everything you love is here, you love this little doll, and your pencils, you know how much you like these slippers" (tá tudo aqui, tudo que você ama está aqui, você ama essa boneca, e os seus lápis, e você sabe o quanto gosta dessas pantufas).

sarah fica olhando praquele monte de coisa e de repente percebe que é tudo lixo. é nesse momento que o quarto desaba com tudo que tem dentro e ela vê que, realmente tá no meio de um grande lixão e que aquelas coisas todas não tem importância. e que, perdida naquele monte de objetos que ela tanto valorizava, ela esqueceu que estava procurando seu irmão, quem realmente importa.


o momento de encantar sarah com suas próprias coisas não é acidental - jareth, o rei dos doendes, sabe tudo sobre a sarah, inclusive o apego que ela tem por suas coisas, seus brinquedos (muitos dos quais dão forma às criaturas e eventos do labirinto) e seu quarto - um último refúgio em que ela ainda guarda as lembranças e mementos de uma vida que, naquele momento, parece ser um passado distante: sua infância com sua mãe, antes de ela morrer e ser substituída por uma madastra e um meio irmão de quem sarah é obrigada a cuidar.

vamo combinar que a sarah é mimada demais e faz escandâlo por nada (a casa dela é massa, o quarto dela é um sonho, e tudo que ela precisa fazer é ficar com o irmão uma noite enquanto o pai sai pra jantar com a esposa, que parece respeitar muito sarah, seu espaço e sua vida particular), mas é compreensível que ela seja hipnotizada por suas próprias coisas - quando o filme começa a gente entende rapidinho que tudo que ela quer é que a vida volte a ser como era antes, e essas coisas são a única prova de que a vida era, de fato, de outro jeito.



ao longo do filme a ideia de possuir alguma coisa se repete de várias maneiras, sempre indicando, em maior ou menor nível, que há trocas sendo feitas muito mais importantes do que simples objetos. como quando sarah compra a ajuda do anão hoggle com sua pulseira de contas de plástico.


hoggle é visto como materialista, egoísta e covarde, por isso é fácil comprar sua lealdade. jareth tenta comprá-la com medo, sarah tenta comprá-la com bijuterias, mas no fim das contas quem ganha a lealdade do personagem é quem, também, se mostra leal a ele: sarah e seus companheiros ludo e sir didimo, que seguem ajudando e aceitando o anão não importa quantas vezes ele fuja ou os traia.


outro momento que ressalta o desapego a coisas materiais é a cena em que sarah encontra a fire gang, um grupo de monstros com a cabeça solta que se orgulham de não usar roupas, não ter empregos, não precisar de nada além de curtição e comida ruim. eles são o extremo oposto da sarah, que valoriza seus pertences acima de tudo: eles são completamente livres de ideias pré-construídas de sucesso, sejam elas ter coisas, ter boas maneiras, ser agradável... os monstrinhos mais anárquicos da fantasia infanto-juvenil.



não deve ser coincidência que eu cresci pra virar essa pessoa que fala sobre a importância de, ao invés de acumular coisas, criar histórias com as coisas que decidimos manter conosco. e no fim, mesmo essas coisas que escolhemos com carinho não passam de lembrança física de momentos e memórias cujo significado nos muda para muito além de possuir um objeto.


entra aí todo aquele papo marie kondo de ter ao nosso redor objetos que nos trazem felicidade. eu gosto de especificar o que signica "trazer felicidade", pra mim, quando se trata de coisas: objetos que tem utilidade e que deixam meu espaço confortável e relativamente organizado, além de visualmente agradável. raramente compro objetos de decoração, e os que eu tenho colecionei desde a adolescência, aos poucos, e representam as muitas melzinhas que eu já fui. não gosto de acumular nem colecionar coisas (coleciono roupas, talvez também sapatos, mas é uma coleção que eu posso por em uso - e ponho, sempre, todo dia - e me parece menor do que o guarda-roupa da grande maioria das mulheres que eu conheço, então tento não me martirizar. sem contar que, atualmente, meu armário é 80% (ou mais) proveniente de segunda mão (herança, brechó, trocas e desapego de gente próxima) e o restanto são coisas que comprei há anos e seguem comigo.


de qualquer jeito, mesmo as coisas que escolhemos com cuidado ter ao nosso redor, seja porque representem partes de nós, descobertas que amamos, memórias importantes, elas seguem sendo coisas. elas não são as descobertas, as memórias e, muito menos, parte de nós.


é o que o magritte tava dizendo: isso não é um cachimbo. nem o prazer de fumar um cachimbo. nem todas as sensações olfatórias, palatares e tácteis de fumar um cachimbo.


uma coisa é só uma coisa. e, sim, precisamos ter cuidado com coisas materiais, consumir menos e de maneira mais consciente, cuidar do que temos, descartar menos e fazer durar. mas nunca nos deixar ser dominados por elas, pela vontade consumi-las, pela troca incessante do ser pelo ter.



o que sarah percebe, ao ver todas suas coisas como o lixo que, inevitavelmente, virarão, é que criar uma relação com seu novo irmãozinho, mesmo que signifique virar a página, deixar o passado descansar e se reinventar num novo momento, numa nova fase, é mais importante do que ter todos os ursinhos de pelúcia de sua infância. que a memória da sua mãe e da vida que tiveram juntas é muito mais forte do que uma coleção de objetos. e que o passado e sua memorabilia material não podem ter poder sobre nós.


mas jareth-bowie-rei-dos-duendes pode ter TODO O PODER SOBRE MIM. eu me entrego sem pestanejar, ce tá loko desperdiçar uma chance dessas.



uns anos atrás eu passei esse filme pros meus alunos de 2o ano do ensino findamental (7-8 anos) no último dia de aula. foi incrível perceber como foi algo totalmente diferente do que eles estavam acostumados a ver, uma vibe tão desencontrada com o tipo de filme infantil sendo feito hoje em dia. eles ficaram completamente concentrados do começo ao fim - e vocês não tem ideia de como é difícil concentrar crianças por mais de 10 minutos nesses tempos de internet.



também ficaram bem confusos com a ideia de que a maioria dos personagens não é nem do bem nem do mal, já que a noção sendo vendida atualmente é que a dicotomia tem que ser clara e absoluta, o que é totalmente absurdo.


no fim do filme, um dos meninos me cutucou no ombro e disse: teacher, você pode me explicar O QUE É QUE ACABOU DE ACONTECER? ao que eu respondi "mas o que você acha que aconteceu? o que você acha que a sarah aprendeu depois de tudo isso?" "EU NÃO SEI???? EU. NÃO. FAÇO. A. MENOR. IDEIA. DO. QUE. ACONTECEU?????"


eu quis dizer que me sinto assim todos os dias da minha vida e que ele logo logo também vai sacar que essa é a vibe mesmo da existência, mas apenas ri e fiz um cafuné naquela cabecinha confusa.



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