• melody erlea

o lado bowie de bono vox

nem só de david bowie e fernando pessoa vivem os heterônimos....


vou deixar pra lá a discussão de que qualquer popstar, pessoa famosa ou célebre de algum tipo é um alter ego - nenhuma delas tá ali mostrando todas as suas facetas e sim moldando uma imagem que transmita uma certa mensagem. mas tem alguns popstars que levam o altergo ao nível absoluto - e tem outros que tentam. bono vox tá em algum lugar no meio disso.


assim como bowie é o alter ego superstar constante de david jones, bono vox é apenas o personagem de palco de paul david hewson. e assim como bowie, bono é um alter ego que tem seus próprios alter egos.


lá em 1978, mega influenciado pelo próprio bowie, sua maior referência artística, e pelo movimento punk new wave do reino unido, paul david, que já se apresentava como bono vox, criava seu 1o alter-alter ego, "o tolo", que ele encarnava pra apresentar uma das primeiras músicas que a banda lançou em demo, the fool.



naquela época o som deles era muito diferente, e essa música tem uma sonoridade punk que ainda ia mudar bastante até o lançamento do 1o disco do u2, em 1980. aquela energia de palco que remete à eletricidade do punk, era parte do personagem - uma versão adolescente-garage-rock de popstar que ele queria ser, uma representação da sua imaturidade artística.


a banda alcançou o estrelato nos anos 80, na fase em que bono diz que eles estavam sendo mais fiéis a quem eles eram de verdade - é aquela fase que os deixou conhecidos por levantar bandeiras ativistas e apoiar com causas sociais. bono ficou meio #chateado com as pessoas ao redor do mundo o chamando de pedante e decidiu chutar o balde - os anos 90 inauguraram a fase-david-bowie-escrachado de bono vox.


cês lembram lá no começo dos anos 90, quando ele usava um óclão de sol enorme, parecendo uma mosca? pois esse foi o alter ego que ele apresentou pro mundo, depois de chamar o brian eno (que trabalhou com quem? ele mesmo, bowie) pra colaborar e se mandar pros eua pra se inspirar. the fly, ou a mosca, era a versão egotrip-rockstar dele, o roqueiro narcisista. na mesma turnê, ele também apresentou the mirrorball man, um cowboy-de-las-vegas ironicamente inspirado pelo american way of life.


quando ele voltou pra europa pra apresentar o mesmo show, sentiu que a coisa tava americana demais e trocou o cowboy de paetê por um alter ego mais apropriado pros gostos sombrios e sérios dos europeus. inspirado no mefistófeles de fausto, e no musical the black ryder, escrito por tom waits e william s. burroughs, bono apareceu vestido de diabinho, encarnando o personagem mc macphisto, um misto de ronald mcdonald com belzebu. sim, um fucking palhaço do inferno.


com macphisto, bono trouxe a política e a justiça social de volta pro palco e pro seu discurso, mas de um jeito menos eco-chato e mais *teatral* (david bowie, kate bush, bono vox... reparem que essa época era cheio de rockstar-clown-mímico; que fase). macphisto telefonava pra cebridades, ali do palco mesmo, pra fazer perguntas incômodas, e tentou várias vezes falar com o presidente bush - e em uma de suas aparições recentes, pouco antes da pandemia (depois de quase 30 anos sem dar as caras nos palcos do u2), macphisto mencionou até o presidente bozo, um dos verdadeiros palhaços do inferno que assola o mundo.



(eu, honestamente, prefiro a fase anos 80 do u2, antes dos palhaços-cowboy e dos palhaços-demônio, quando eles eram só eco-chatos mesmo. as músicas eram melhores e os luquinhos também, menos forçação de barra e mais autênticidade, e aquele frescor de quem ainda tá se descobrindo famoso e não sente que precisa ficar brincando metalinguisticamente com o conceito de ser famoso. uma leve arrogância juvenil, mas não arrogância da celebridade. sabe?)







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