• Gisele Tronquini

“Vá pegar o alicate, meu filho!” Fiona Apple e a irmandade das mulheres difíceis


Eu não sou uma pessoa que costuma ouvir indie. Ouço uma coisa aqui, outra ali, gosto da Regina Spektor, mas não vou muito além disso. Pois em maio, quando a minha amiga Melody me mandou uma mensagem no whatsapp perguntando se eu “tinha escutado o novo da Fiona Apple”, a resposta foi “não, mas ouvirei” (essas promessas que a gente faz com pouca intenção de cumprir; me desculpe, amiga). Pouco tempo depois, a Mel publicou um post aqui no Repete Roupa sobre o tal disco com o nome dele, “fetch the bolt cutters” (vá buscar o corta vergalhão, para uma tradução mais literal, ou simplesmente vá buscar os alicates, se você não faz questão de saber o tamanho do alicate) que é uma frase falada pela detetive Stella Gibson na série The Fall, uma das que eu mais gosto no mundo. Lógico que isso me fez tanto ouvir o disco quanto rever a série.


Fionna Apple em 2012

Pois bem.


A Fiona Apple sempre esteve para mim (junto com a Sinéad O’Connor) no grupo de mulheres de beleza padrão que sofrem muito desdém por não cumprirem seu papel de mulher padrão. As duas são brancas, tem feições delicadas, vozes angelicais e uma absoluta rebeldia em cumprir expectativas como cantoras, como mulheres e sobretudo como mulheres bonitas. Nunca esconderam seus transtornos psiquiátricos e alimentares, seus traumas, seus envelhecimentos e por isso sempre foram consideradas mulheres difíceis e até mesmo desperdiçadas. Quem nunca ouviu um “nossa, essa moça seria tão bonita se deixasse o cabelo crescer e se vestisse bem” ou um “gente, a Fiona tá estragada né”? Por isso não me surpreendeu nadinha o encanto da Fiona Apple pela detetive Stella Gibson e poder das suas frases.


Perguntas importantíssimas que a série The Fall trouxe para a minha vida: o que Stella faria?

Para quem nunca assistiu, The Fall é uma série produzida pela BBC da Irlanda do Norte estrelando Gillian Anderson (a Scully, do Arquivo-X) como a detetive, e Jaime Dornan (o Christian Gray de 50 tons de cinza), como o assassino em série (e terapeuta de trauma) Paul Spector. A princípio, parece uma série de detetive e assassino como tantas outras, mas é um pouco mais profunda que isso. Pra começo de conversa, temos uma detetive encarregada do caso que deixa claro desde o primeiro momento para sua equipe que estamos falando de um assassino HOMEM e misógino. O perfil de suas vítimas (mulheres de cabelo escuro, trinta e poucos anos, sozinhas e bem sucedidas) demonstra ódio em um buraco onde fatalmente vão encontrar um homem no fundo. Em segundo lugar, a detetive Stella Gibson é uma mulher totalmente padrão que todos que a cercam consideram difícil logo de cara. Ela olha nos olhos os chefes homens, é séria, sorri muito pouco, não tem filhos, exerce sua sexualidade da maneira que acha conveniente e não tem medo de chamar machismo de machismo. Em determinado momento, o chefe de polícia Jim Burns diz à ela você tem noção do efeito que causa nos homens?


O detetive vacilão Jim Burns

E para quem olha a superfície pode parecer óbvio que ele está dizendo que aquela mulher linda, loira, segura de si causa tesão em qualquer ser humano vivo, mas basta um pouco de atenção pra saber que na verdade ele está absolutamente apavorado. Aqui do meu sofá eu quase consigo escutar a Fiona Apple assistindo essa representação tão próxima dela mesma, e vibrando SIMMMMMM É DISSO QUE EU ESTOU FALANDO!!!


Claro que ter essa mulher encarregada do caso deixa o assassino cada vez mais puto. Logo somos apresentadas à vida doméstica de Paul Spector: seus dois filhos, Olívia e Liam, e sua esposa Sally Ann, que representa o exato oposto de suas vítimas: uma mulher loira, grande e alta, maternal, que é chefe da enfermaria neonatal em um hospital. Quão misógino tem que ser um homem que considera que uma enfermeira neonatal tem uma profissão INFERIOR a dele? É exatamente desse tipo de homem que estamos falando. Ele odeia mulheres em posições de poder, diz a detetive Stella, “E quem não odeia?” responde o seu encarregado homem. Claro que para um homem misógino, que divide as mulheres entre putas e santas, mãe e estéreis, loiras e morenas é impossível ver a linha que liga todas as mulheres na série, mas nós vemos a dissolução das barreiras invisíveis criadas pelo patriarcado. Só nós acompanhamos a durona destruidora de homens detetive Stella Gibson chorar vendo em uma fita uma mãe se humilhar pelos seus filhos, segurar a mão de uma desconhecida em uma UTI escura, consolar uma mulher que perdeu a irmã e tem que dar apoio para o pai; só nós vemos a madrugada que Sally Ann passa na UTI neonatal com uma mãe cujo bebê recém nascido só vai viver mais algumas horas. Todas essas mulheres, seus sentimentos, sua solidariedade, passam despercebidas para os homens ao redor, mas não para nós, espectadoras. Kick me under the table all you want, I won’t shut up, I won’t shut up, já diria a Fiona no tal disco novo. Representando a cegueira masculina, o detetive Jim Burns, no seu enlevo machista de acreditar na mulher sobre humana, pergunta à detetive Stella porque as mulheres são tão emocional e espiritualmente superiores aos homens. Pistola da vida e sacando exatamente o que esconde essa pergunta, ela responde: a forma básica humana é feminina, a masculinidade é um defeito de nascimento. É como quem diz em nome de todas as mulheres: eu devolvo o pedestal que você me construiu quebrando ele na sua cabeça. Nada feminista, mas plenamente satisfatório (e eu aposto que a minha já amiga Fiona concorda).


Veja bem, The Fall é uma série escrita e dirigida por um homem, eu nem sei se ele pretendia que as coisas fossem tão feministas assim, uma vez que pelo nome dos episódios (todos retirados de algum trecho d’O Paraíso Perdido do John Milton) e a série se chamar A QUEDA, acho que a ideia era capturar a trajetória de um homem que tem tudo, mas é refém dos próprios desejos. Uma coisa bem tragédia grega, se vocês me perguntarem. E assim como boa parte das tragédias gregas, as personagens femininas é que roubam a cena e fazem a história acontecer. Mas isso é história para outro dia.


No final das contas, eu ouvi o disco da Fiona Apple e gostei de algumas músicas. Li todas as letras e achei um disco que fala bastante sobre a relação entre mulheres, sobre ciúmes, inveja, solidariedade, trauma, medo, amizade, amor. A tal da frase que nomeia um disco é um momento em que Stella pede ao policial que a acompanha para buscar os alicates e cortar as correntes que fecham o lugar escondido do assassino, aquele onde ele guarda os fetiches, manequins, obsessões e todas as provas materiais do seu ódio. Fazendo uma analogia inteligentona aqui, é nesse lugar que os homens gostam de nos prender. Não é mais nesse lugar que a Fiona quer ficar escondida, e eu acho que nós também não.

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