• Filipe Chamy

Contra o desapego


Melzinha na biblioteca minimalista (sim, roubei a foto da chefe)

Minha amiga Melody Erlea publicou um texto chamado “Minha biblioteca minimalista” há algumas semanas. Como todo texto assinado por ela, é uma delícia de ler e instiga reflexões variadas, com aquela admirável qualidade que possuem os escritos que parecem dialogar conosco de algum jeito: a gente fica querendo se explicar, justificar, conversar. Por pensar muito diferente da Mel nesse assunto, falei que deveria escrever um texto-resposta, ideia que ela, sempre honesta intelectualmente e um doce dialético de pessoa, acolheu imediatamente. Então, se possível, tenham o texto da Mel próximo a vocês ou lido de fresco para caírem nos parágrafos seguintes.


Comecemos já com as credenciais do mal: sou o famoso “acumulador”, colecionando desde a infância revistas, discos, badulaques de toda sorte e, sobretudo, livros. Difícil haver semana sem adquirir novos títulos. Sem passar (, na normalidade,) em sebos e sair com algum filhote de celulose. Sem me rodear pelas mais diferentes espécies de edições, diversas proporções, aparências, volumes e pesos ligados a papel, papel e mais papel – possivelmente perdendo apenas para oxigênio como a coisa que mais cheirei na vida.

Crowley pasmo com vocês (foto de ?)

Mas eu sou um zen-budista literário, um discípulo de Aleister Crowley filtrado por Raul Seixas: façam o que quiserem, há de ser tudo da lei. Não possuo migalha de contrariedade referente a quem pense diferente de mim e quer desacumular, se livrar das coisas, seja a Mel, seja você, seja não importa quem. Meu problema é a ética pessoal, justamente porque não há certos nem errados nessa história.


Tentando aprofundar a coisa: quem quiser ter uma biblioteca minimalista, tenha-a; quem não quiser, que não a tenha. O princípio é simples e evidente, mas como todas as coisas naturais é difícil de ser aceito na integralidade. A Melody apontou o paradoxo: ter uma biblioteca virtual é quase o mesmo que ter uma biblioteca real, no sentido de comprar coisas e acumular leituras que talvez nunca sejam feitas. Então o minimalismo também pode ser uma ostentação, também pode configurar um desperdício.

Uma cena-gatilho para bibliófilos... (Har Anand)

Porém eu pessoalmente me insurjo contra o ideal de “desprendimento utilitário”. Digamos que as pessoas gostam de julgar os outros pelas metas de produtividade, que nesta quarentena pandêmica perpétua revelou sua face mais cruelmente escravagista. Viramos zumbis de resultados. Então é muito comum ver gente se penitenciando por comprar mais livros do que consegue ler, jurando por todos os santos, orixás e demônios que deixará de gastar com tais inaceitáveis excessos.


No meu entender, isso se relaciona a uma abstração horrorosa que em síntese força alguém a consumir todas as coisas em redor para julgar sua existência aproveitável. Eu não quero considerar que os livros que tenho em casa são uma ampulheta da minha vida, podendo eu morrer assim que terminar de ler o último volume inédito que possua aqui. Não concordo em absoluto com o pensamento cada vez mais corrente de biblioteca montada para fins de consumo total.

Uma vida para ler tudo? A vida da ficção é eterna... A biblioteca do castelo de "A bela e a fera" (1991)

A Melody falou da biblioteca da Fera, e acho que comentei com ela e com muitos outros amigos que esse é um ideal que me persegue, tanto que dei ao meu novo apartamento, para o qual estou de mudança, o nome de Castelo da Fera. E a instrução que dei ao marceneiro que faz o principal móvel para os livros é que, assim como no Castelo Rá-Tim-Bum a construção foi erigida em redor da árvore, no meu castelo tudo se baseará no que há em volta da biblioteca principal. A ideia do paraíso borgeano, a biblioteca infinita, infindável...

Borges, eterno fuçador de livros (Poetry Dispatch)

Assim como a Fera nunca lerá todos aqueles livros – inclusive há uma cena excluída que mostra o príncipe como analfabeto, como o eram muitos príncipes –, tampouco tenho a veleidade de esgotar minhas leituras em vida. Não sei o que seguirá a mim, se terei esposa, família, filhos, se tudo isso será vendido para sebos, jogado no lixo, movido para um acervo de biblioteca ou centro cultural (a hipótese de minha preferência). Mas sabem o quê? Não importa.

Tanto faz o destino das coisas, se há coisas para haver destino. Eu morrendo o universo pouco se lixa, como vivendo também mal se altera. A questão é maior que mim, e ouso dizer que maior que vocês: uma biblioteca é um acúmulo sim, mas um acúmulo positivo, de saber, de registro, de alcance. A virtualidade não retira as propriedades relevantes dos livros físicos, mesmo nossas noções de consumo e absorção dos saberes tendo sofrido e sofrendo contínuas alterações.

Sou um escritor de ficção, e se me perguntarem se prefiro que as pessoas leiam minhas obras em papel físico ou por kindle minha resposta será candidamente: para mim tanto faz. O texto é o mesmo. Apesar de toda a disposição gráfica mudar radicalmente, e eu particularmente atrelar grandes lembranças sinestésicas de lugares aos livros que consumo (exemplo: estava em Americana, para um casamento, lendo as Metamorfoses de Ovídio, e no jardim da Cinemateca Brasileira lendo Sangue fresco, de João Carlos Marinho), se aos demais indivíduos isso pouco conta, não serei eu a me opor. Fico agradecido se alguém comenta comigo dos livros sejam eles físicos ou virtuais.

Bibliotecas, para Resnais: "Toda a memória do mundo" (1956)

Então por que raios defendo o acúmulo dos livros físicos? Isso tem a ver com meu credo espiritual. Não falo de religião, mas da ética dos livros. Um exemplo pessoal: consumo muita coisa da Antiguidade. A maior parte dos textos antigos se perdeu, e exceto por algumas gloriosas preservações de Homero, Virgílio e outros ícones, dela possuímos apenas fragmentos. Imaginem um bibliófilo minimalista desapegado na Antiguidade: “Este manuscrito está praticamente ilegível! Há dez rolos de pergaminho mas apenas duas linhas legíveis. Não entendo para que poderão servir, assim sem contexto, no meio de tanto material estragado horrível! Vou me livrar disso e para já, seguindo os conselhos de Maria Kondus!”.

Restaurou, tá novo! (São Paulo Antiga)

O pensamento é: você não precisa, mas conservar aquilo pode trazer ganhos e benesses para todo o mundo (literalmente), servindo a algum pesquisador ou curioso que queira ter acesso ao material. Isso também é democratização de acesso, pois torna todos os conhecimentos produzidos localizáveis. As coisas preservadas existirão enquanto forem preservadas, mantidas, conservadas.

“Mas eu não tenho nada raro que justifique manter livros em casa!”, dir-me-ão alguns. Certamente; mas princípios são universais, não singulares. Quer dizer que isso vale para tudo. O livro que você acha inútil adquirir ou manter pode ser o livro que alguém encontraria por acaso na sua mesa e quereria ler. Como isso funciona na era do tudo-nuvem? As pessoas não emprestam seus aparelhos às outras, até onde se pode verificar. Quem sabe a longo prazo isso não modifique muitas dinâmicas de recepção e popularidade dos livros? Podemos ficar tranquilamente otimistas com tais mudanças?

Numa boa no intervalo lendo um romance (Na Prática)

Outros problemas de se conservar apenas virtualmente livros é continuar a dependência cada vez mais melancólica das máquinas. Sim, no século XXI já é absurdo pretender viver sem elas; mas precisamos mesmo consumir tudo no celular, com aquela luz eletrônica a cegar nossos olhos e esmorecer nossos outros sentidos? Tudo na palma da mão, localizado com nossos dois polegares hipertreinados. Na era da virtualização, virtualizar tudo é também um erro: somos nós quem viramos um algoritmo. Eu associo celulares a trabalho, família e demais condicionantes tradicionais, de que me vejo fugir se me tranco em um quarto com um livro. Vocês conseguem escapar do mundo (virtual) nunca saindo dele?

Você trocaria a biblioteca do Trinity College por um kindle? (Nezobooks)

Acumular é também pesquisar, consultar, saber encontrar as coisas sem auxílio de redes sociais e outros grandes irmãos. É uma faculdade admirável e em vias de extinção. Não é apenas fetiche, ainda que vejamos assim aquelas bibliotecas de ocultismo nos filmes de terror. Estará tudo no Google?

Noto nisso contraditória incoerência. É dito que nos celulares e aplicativos temos todo o conhecimento do mundo ao alcance de um toque. Contudo livros são equiparáveis aos lanches do McDonald’s na sociedade de consumo: aquilo que é preparado rapidamente não tem lá um valor muito nutritivo. E com todo o conhecimento do mundo na telinha mínima de um smartphone não lemos quase mais nada exceto notícias políticas deprimentes e suas sinônimas fake news. Repararam como as pessoas consomem cada vez menos ficção, exceto em produtos como seriados do Netflix? Não veremos mais alguém comprando um romance policial para esperar o voo no aeroporto. O romance pode ser acessado na telinha do iphone, mas a pessoa estará conectada no Whatsapp e demais anestesiantes políticos e talvez nunca mais se recorde que já leu um livro apenas para se entreter e distrair.

Será o café virtual também? (Cultura Mix)

Ficamos perdidos na barafunda de informações e isso nos impede que as consumamos adequadamente. Muito é nada, e nada será o que extrairemos de toda a massa colossal de coisas que jogam nos nossos olhos todas as telinhas iluminadas. Somos uma sociedade cada vez menos leitora, mais nervosa, doente psiquiatricamente. Não é especificamente culpa da biblioteca minimalista, todavia continuamos nos entregando sem moderação aos lúbricos amores tecnológicos, vendendo a alma para Mefistófeles de quinta categoria disfarçados de Zuckerbergs e Bezos. Esses são nossos arautos e nossos deuses.

Onde o saudável ateísmo (ou vá lá, agnosticismo) cultural? Sendo meio apocalíptico, os tempos o pedem, não será uma das causas de termos milhões de livros nas nuvens e depósitos e aplicativos e bibliotecas virtuais mas cada vez mais a sério acharmos que a Terra pode mesmo ser plana, vacina causa autismo e o coronavírus é só uma gripezinha? De repente todo o conhecimento do mundo está cada vez mais inacessível, pois nossos hábitos nos condicionaram a desconsiderá-lo.

Quanto tempo durarão essas máquinas? (Geek Ninja)

Mel fala do consumismo desenfreado de livros. Concordo com ela que, assim como com roupas, possuir livros nada significa moralmente, sendo inclusive ridículo apontar nisso qualquer distinção hierárquica social – é uma reunião de objetos e nada mais. Não obstante os objetos também nos dão prazer. E a mim não faz sentido considerar uma biblioteca algo disparatado e aceitar passivamente a enxurrada de quinquilharias digitais que invade nossas casas ano a ano. Até porque a obsolescência programada está cada vez galopando com mais ímpeto: bem ou mal, um livro velho de séculos pode ser aberto e lido, enquanto os disquetes da minha infância, apenas duas décadas e meia atrás, nem conseguem mais entrar (ou... serem “lidos”) em um computador moderno, com sua impressionante capacidade de armazenamento de pífios nem dois megabytes! Quem é o aparato descartável agora?

Esta imagem te excita ou repele? (Blumpa)

“Acumular livro velho enche a casa de poeira”. Enche, mas há cuidados que podem ser observados: espaná-los, protegê-los, quem sabe vedar a biblioteca com vidro? Do mesmo modo nós nos empoeiramos todos os dias, e por isso tomamos banho mesmo quando não nos sujamos muito, porque a vida na contemporaneidade é suja e poluída. Mas os pisos, janelas e paredes dos nossos lares também ficam encardidos e não espero viver para ver alguém decidir trocá-los por uma opção virtual. Hologramas, quiçá.

Muitos gatos ficam desempregados sem bibliotecas (Pinterest)

Reitero que a mim tanto faz como as pessoas consomem livros, se isso faz bem a elas. Mas a recíproca parece estar com algum obstáculo na via. Quem tem livros e quer preservá-los, organizá-los e eventualmente adquirir mais só pode ser um mentecapto! É a era do nada possuir, tudo fruir. Total apoio a qualquer manifestação nesse sentido, que não fira direitos importantes das pessoas; eu mesmo sou o primeiro a passar meus livros em pdf para quem se dispuser a lê-los. Mas que crime há em querer ter livros em casa, próximos a você, seja mesmo porque se gosta de vê-los ali, encorpando uma parede que talvez sem eles se ressentisse de sua nudez iletrada? De novo: a cada um, cada coisa.

Enriqueta mandando a real (Macanudo, de Liniers)

Já disse que a minha visão de livros é particular, que diz respeito estritamente ao meu modo de ver as coisas. Considero estranhíssimo ler um livro virtualmente como leio uma notícia no jornal e no dia seguinte reciclo o papel. Nada fica, mal resta a lembrança. Eu prefiro olhar os livros na estante, senti-los perto e amigos, saber quem eu era quando li cada um deles, espécie de relicário da minha biografia decorrida. E sempre existirá mais vida para viver enquanto a página se abrir e o olho correr pela linha curioso do fim. Nas releituras também – meu último reparo ao texto precedente – pois os bons livros são muito melhores quando já conhecemos a rota e nos concentramos não em chegar mas em observar as belezas no caminho.


P.S.: Os direitos das imagens pertencem a seus detentores.

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