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  • Foto do escritormelody erlea

fashion icon acidental: marla singer


se eu disser que não fui altamente influenciada pela estética marla singer estarei negando não apenas uma referência profundamente importante pra mim como um zeitgeist de toda uma juventude alternativa do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000. clube da luta era o momento: o niilismo, o cinismo, o empilhamento de referências, sarcasmo e escapismo aliado com uma estética pós-apocalíptica extremamente satisfatória naquela virada de década, século e milênio… a epítome da atmosfera da época, a representação cinematográfica da nossa, ainda abstrata e difícil de descrever, rejeição ao capitalismo tardio no qual tínhamos sido inseridos desde o nascimento.


e a marla… a marla era uma mulher diferente de todas que eu conhecia, mas ela me parecia muito mais apropriada aos tempos: desequilibrada porém visionária, carente porém independente, estranhamente atraente e sombriamente inteligente.


o guarda-roupa de marla funciona como um contraponto para o de tyler durden (papel de brad pitt), o übermacho que ao mesmo tempo rejeita e idolatra a masculinidade pós-moderna. assim como marla, durden não tem um único centavo, e seu estilo é formado por itens vintage e de segunda mão selecionados por olhos cuidadosos.



durden emana uma vibe setentista, como se john travolta saísse dos embalos de sábado à noite e fosse diretamente transportado pros anos 90 pra fazer parte de uma boyband. uma mistureba deliciosa e extravagante - incluindo um look com casaco de pele e mocassins gucci (o figurinista michael kaplan achou os sapatos por 10 dólares num brechó), que delineia as contradições estéticas e ideológicas de um dos personagens mais marcantes dos anos 90.

todo o cuidado que durden parece ter com sua imagem se expressa de maneira oposta em marla singer: enquanto a excentricidade dele é bem acabada e luxuosa, a de marla é confusa, perdida e, muitas vezes, triste. enquanto a paleta de cores de durden é teatral e retrô, a de marla é macabra, errática, caindo aos pedaços.



helena bonham carter é ,e em retrospecto, a escolha ideal para marla - mas na época nem ela mesma acreditou que conseguiu o papel, no qual courtney love também estava de olho. a atriz, que depois se tornou figura marcada nos filmes de tim burton e poster-girl desse estilo gótico-desgrenhado, na época era conhecida por dramas de época e novelas britânicas, bem distante do submundo da cultura alternativa e seu pouco apego por beleza ou harmonia.



michael kaplan pensou na marla como uma judy garland da virada-do-milênio - sempre com um cigarro aceso nos dedos, com uma vibe drogadita e feição cadavérica com olhos fundos e fixos. e, claro, aquela vibe de quem nem queria estar vivendo (e por isso frequenta grupos de suporte para pessoas que estão, efetivamente, morrendo). o estilo de marla é tão torto quanto sua saúde mental.


não é à toa que o protagonista do filme, o narrador sem nome interpretado por edward norton, se aproxima dessas duas figuras excêntricas - ele mesmo um homem completamente comum e imemorável, com suas roupas sociais de poliéster sem absolutamente nenhum toque pessoal, em tons de bege e cinza, perdido em sua própria dormência.



em durden, ele encontra sua antítese completa: um homem cheio de vida - e insanidade - que rejeita as normas estéticas de gênero; um chapeleiro maluco cosmopolita que nos retira do vórtice sem sentido da vida real através do dom da violência. e em marla, ele encontra seu extremo: alguém tão desgostosa da vida, tão imersa na anestesia da falta de sentido de tudo, que se descolou completamente das dinâmicas sociais e só consegue sentir algo quando rodeada pela ideia da morte.

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