• melody erlea

o terno revolucionário de jae jarell



em 1970 a artista, estilista e ativista pelos direitos civis jae jarell expôs sua mais nova criação, que ela chamou de terno revolucionário. era um conjunto tipo tailleur, saia e jaqueta, feito de tweed - bem clássico - mas com um twist: a lapela do terno imitava um cinto de munição, o chamado bandolier, completo com balas falsas coloridas que representavam o poder social da arte e da criatividade.


o terno era revolucionário literal e figurativamente: como item de moda, era absolutamente precioso, criativo, original e repleto de significado político - sendo, portanto, uma pequena revolução fashion - e, como peça de arte, fazia referência a séculos de história de revoluções populares em comunidades da américa latina, além de trazer uma releitura de tendências urbanas da contra-cultura, como o look dos membros do partido dos panteras negras, que muitas vezes incluía um bandolier.




além de carregar o histórico de revolução armada, o clássico bandolier de munições passou por tantos lugares do mundo que acabou inspirando pequenas revoluções artísticas locais - os índos nativos da região dos grandes lagos, na américa do norte, desenvolveram a partir do início do século XIX uma sacola chamada bandolier que se tornou tradicional na região, que era usada na transversal como os badoliers de munição, mas ao invés das balas eles tinham suas alças bordadas minuciosamente com miçangas, em motivos coloridos e floridos.



essas bolsas-bandoliers se tornaram tão preciosas culturalmente e economicamente, que eram trocadas por animais, comida e mantimentos, e consideradas muito valiosas por causa de seu peso - uma bolsa inteira bordada com miçangas e contas, imagina quão pesada era!


bandoliers da região zulu

em partes da áfrica, como na região dos zulus, um tipo de acessório típico local também parece ter sido inspirado nos bandoliers de colonizadores que passaram por lá - as comunidades da região usavam um cinto feito de miçangas, que se vestia na transversal. embora alguns povos africanos já trabalhassem com contas e miçangas há séculos, esse tipo específico de acessório usado na transversal passa a aparecer a partir de 1800, sugerindo a influência de visitantes ocidentais. foi também nessa época que os colonizadores europeus passaram a comercializar miçangas de outras partes da áfrica para a região sul do continente. até então, miçangas eram usadas, principalmente, como moeda entre comunidades africanas - com a colonização e comercialização do material, a partir de 1850 elas só podiam ser adquiridas em troca de dinheiro, o que fazia do artesanato de miçanga algo valioso.


não é à toa que o bandolier fizesse parte do imaginário artístico de contra-cultura de ativistas pelos direitos civis: carregando munição ou não, o item carrega a história de opressão cultural e revolução popular ao redor do globo, além de representar a diáspora negra e a luta por direitos.


para jae jarell, no entando, os significados revolucionários do bandolier vão além da luta popular e da busca por direitos. a estilista era parte do grupo de artistas afriCOBRA, ou "commune of bad relevant artists" (comuna de maus artistas relevantes), que tinha como objetivo enfatizar a criação artística negra de maneira positiva e incisiva.


alguns dos princípios que os membros do afriCOBRA consideravam ao fazer arte eram: uso de cores "cool ade" (fazendo referência às cores usadas em vestimentas de origem africana e também ao estilo colorido nos negros norte-americanos nos anos 60), imagens positivas (que trouxessem dignidade, força e humanidade à expressão criativa negra), uso arbitrário de luzes e linhas (fugindo à estetica européia de beleza e harmonia), frases escritas (afirmações, frases políticas e mensagens de impacto visual e social explicitamente escritas nas obras), simetria livre (uso de movimento que remetesse às danças africanas e ao andar das comunidades negras, o equivalente a "fazer blues" nas artes plásticas) e horror vacui (a negação aos espaços vazios, o uso por inteiro das telas, espaços e superfícies).


no geral, o grupo de artistas queria trazer uma imagem positiva, alegre, ainda que politicamente forte, ao fazer artístico das comunidades negras, substituindo a auto-imagem negativa que o negro costimava ter na américa por cores, afirmações comunitárias e criatividade.


foi nesse contexto que jae jarell criou e apresentou seu terno revolucionário - um híbrido de item de moda e peça artística, que, ao lado de outras obras da estilista, ela expunha em exibições de arte juntamente com as obras - pinturas, esculturas - de seus colegas do afriCOBRA. dessa maneira, jae jarell não apenas tirava a moda das passarelas e a trazia, literalmente, para o espaço da arte - ela também apresentava roupas que era, por si só, afirmações políticas e artísticas. roupas que servem pra vestir corpos, mas também como representação artística de um pensamento e um tempo.


o terno revolucionário foi apenas uma de muitas criações artísticas e revolucionárias de jarell, que, seguindo as diretrizes do afriCOBRA, traziam sempre referências à diáspora negra, à descendência cultural africana e ao movimento pelos direitos civis norte-americanos. mas, no contexto do ano de 1970, ele tinha um peso ainda maior: com a popularidade dos panteras negras e a ideia de revolução civil por direitos iguais, o uso do bandolier como acessório de moda e afirmação política se popularizou entre comunidades artísticas negras. às vezes usado como cinto, o acessório funcionava mais do que apenas como assinatura de estilo - ele identificava a intenção política que a moda pode carregar em certas comunidades.


a tendência foi tamanha que a revista jet - publicação norte-americana feita por e para a comunidade negra - dedicou uma reportagem de capa à moda do cinto bandolier, não apenas para eternizar o trabalho de jae jarell e a importância política da moda, mas também para denunciar uma loja de departamento - cujos donos eram empreendedores capitalistas brancos - por plágio. aparentemente, a loja estava comercializando versões do cinto bandolier produzidos em massa, para seu público extremamente branco e apolítico, a preços altíssimos e inacessíveis, que passavam a caracterizar o cinto como uma tendência para as elites. o artigo pontua que, para muitos, o problema não é o uso do acessório por mulheres brancas - que são citadas como grandes apoiadoras e beneficiárias das vitórias dos movimentos negros - mas os preços altos que afastam o item da luta popular.


jae jarell propunha, justamente, o oposto: designs vanguardistas e significativos, produzidos a preços acessíveis, sem perder o viés politizado e social da peça.


do terno revolucionário, ela dizia: pra carregar munição para revolução e munição para criatividade.


e é isso que moda devia ser, a meu ver.





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