• melody erlea

do méxico ao havaí: moda regional por e para turistas


é comum a gente pensar em moda típica mexicana e ver surgir à mente imagens da frida kahlo e seus trajes tehuanos, que ela combinava com flores na cabeça e jóias turquesa. ou, talvez, a gente se lembre do bordado otomi, com suas imagens de flores e animais em linhas multicoloridas no fundo branco. ou, ainda, se recorde dos tantos outros trabalhos manuais têxteis - bordados, estampas, modelagens - que reconhecemos como mexicanos., ou da região da américa central.

parecido com as vestimentas tehuanas de frida, um dos trajes mais popular entre as camponesas do méxico a partir de meados do séc XIX - e completamente estabelecido no séc XX - era a "china poblana": saias longas, rodadas e bordadas com motivos florais e lantejoulas, batas com decote reto, que às vezes deixavam os ombros à mostra, também decoradas com bordados, e um chale (chamado rebozo localmente).


o curioso é que, embora no início do século XX elas já fossem consideradas vestimentas típicas, as origens da china poblana são múltiplas: o caimento, volume e comprimento da saia remete à era colonial. já os motivos florais bordados nas saias tem origem - pasmem! - da china e do japão! não apenas ele foram os primeiros povos a pisar os pés na américa central, séculos antes dos espanhóis, sua presença foi relevante o suficiente pra mudar a estética local: as flores e cores usadas nessas roupas mexicanas são inspiração direta dos têxteis trazidos da ásia.


são!!!!! flores!!!!! chinesas!!!!!!!! numa saia européia colonial!!!!!!!!!! com um chale que ninguém sabe ao certo se é nativo da região do méxico, se veio com os asiáticos ou se foi introduzido pelos europeus. e isso compõe um: traje típico mexicano! é lindo olhar pra uma roupa e enxergar a história da humanidade, hein? fala sério!


essa influência asiática não acabou quando os espanhóis se estabeleceram na américa central - na verdade ela se intensificou, porque as filipinas também eram colônia espanhola e por lá muitos tecidos chineses continuavam chegando ao méxico.

é claro que essa influência têxtil foi reinterpretada e adicionada a um caldeirão de outras influências - a china poblana é, sem sombra de dúvida, uma vestimenta típica local, encontrada numa região específica do mundo, ainda que contenha um pouquinho do planeta inteiro em si. mas que ela não seja tão antiga quanto imaginemos, e que ela já seja o fruto de miscigenação cultural e políticas coloniais mesmo sem a gente perceber.... faz a gente pensar, né?


de qualquer maneira, esses trajes típicos permaneceram no méxico, sem chamar muita atenção do resto do planeta, até a década de 1950. quem tirou a estética do méxico e a levou para o mundo - ou, mais especificamente, para os estados unidos - foram os turistas norte-americanos.

a popularização da moda típica mexicana aconteceu no boom econômico do pós 2a guerra, quando as classes médias norte-americanas passaram a ter mais tempo livre e acesso a viagens - principalmente para locais próximos, modernamente colonizados e que ofereciam a vibe turística e paradisíaca que supunha a oportunidade de um descanso precioso ao exausto trabalhador do hemisfério norte. havaí e cuba (antes de fidel acabar com a festa) eram destinos populares, mas, para os californianos, méxico era o destino preferido.


e foi através da california - que nos anos 50 também popularizou um estilo de vestir feminino mais informal, com tecidos leves, cores claras e estampas coloridas, ideais para o clima quente e para atividades ao ar livre - que a estética da china poblana ficou popular.


embora as classes altas mexicanas preferissem seguir a moda européia e costumeiramente desprezassem a moda local, a proximidade da california com o méxico fazia com que muitas turistas voltassem de lá inspiradas pelo que viam: as norte-americanas queriam as saias regionais bordadas e coloridas, feitas de algodão, frescas e femininas.


foi assim que se criou uma moda exclusiva pra turistas, ainda que tipicamente mexicana: as saias rodadas pintadas a mão. elas eram feitas regionalmente e vendidas como souvenir para turistas - e foram febre nos anos 50 nos estados unidos.

essas saias não eram usadas localmente pelas mexicanas, mas suas pinturas representavam a vida local - cactos e outros tipos de vegetação, festas típicas, figuras míticas astecas e maias... assim, elas satisfaziam o desejo turístico de exportar as saias regionais, sem comercializar em massa as roupas típicas usadas de verdade pelas mulheres locais.

essas saias eram pintadas ao ar livre, em feiras nas ruas, por artistas que abriam o tecido redondo, já cortado em forma de saia, em ENORMES discos de madeira. infelizmente só consegui achar uma mísera imagem desse ofício, mas posso dizer o seguinte:⠀

foi só as americanas começarem a usar - com blusa de ombro de fora, como ensinado pela moda californiana - que o estilo informal norte-americano pontuado com influências étnicas se popularizou entre as mexicanas ricas também.


não foi só no méxico que a influência da colonização aliada ao imperalismo pós-segunda guerra norte-americano fez surgir uma moda típica regional específica para turistas: o mesmo fenômeno aconteceu no havaí, na mesma época em que as californianas tavam pirando em saias mexicanas.


curiosamente, no havaí também houve grande fluxo de imigrantes orientais, principalmente do japão e china. e, da mesma maneira que no méxico, os tecidos trazidos desses países para o havaí modificaram profundamente a moda local.


enquanto dos chineses eles se apropriaram de certas modelagens, tipo golas mandarim, vestidos cheonsang e túnicas, dos japoneses eles utilizaram as estampas e cores. então sabe aquelas clássicas estampas havaianas floridas?


são!!!!!!!! flores!!!!!!!!!!!!! japonesas!!!!!!!!!!!!!!!!!


essas estampas asiáticas chegaram nas ilhas havaianas em meados do século XIX, e foram assimiladas pelos trajes sendo usados na época pelos nativos da região: vestidos longos, inseridos nas comunidades pelos missionários europeus pra ensinar a ideia de modéstia e cobrir o corpo. esses vestidos, chamados mumus, eram estampados com motivos geométricos que eram comuns naquelas ilhas, e depois passaram a ser feitos nas estampas florais que virariam símbolo pop havaiano.

os mumus, com a influência da estética chinesa, aos poucos e tornaram mais justos ao corpo, mais ousados e, nos anos 50, já estavam mais curtos e sensuais, naquele estipo pin-up do havaí. tanto versões mais ocidentalizadas dos vestidos havaianos, tipo bombshell hollywoodiana, quanto as mais clássicas de influência chinesa ficaram populares desde os anos 30 e tiveram seu ápice na década de 50 - junto com a cultura tiki, uma tendência turística que se estabelecia graças aos norte-americanos do pós segunda guerra, e que se valia de apropriação cultural e uso de divindades polinésias como decoração em bares e casa de veraneio.

a partir dos anos 60, com o uso já desgastado da estética havaiana culminando nos filmes de elvis no havaí e na popularização da surf music nos estados unidos (de bandas como beach boys), a estética tiki foi se tornando antiquada e kitsch e caindo em desuso - até seu revival nos anos 90, tanto de maneira irônica (tipo as camisas do weird al yancovic), quanto de maneira fashion-nostálgica, tipo no figurino do filme romeo+juliet com leonardo dicaprio.

junto com o revival da estética havaiana na década de 90 voltou também o apreço por modelagens chinesas como a gola mandarim e o vestido cheonsang, grandes tendências dos anos 90 que foram revisitadas juntamente com as estampas floridas tiki, do jeitinho que se usava nos anos 50.

mas mesmo nos anos 80, quando a estampa havaiana era demodé, coisa de gente na crise da meia idade, havia um certo valor em achar um vestido original tiki dos anos 50. se liga na madonna, em 1986, com seu achado vintage. esse não é um tiki qualquer - percebam que ao invés de flores ele é estampado com formas geométricas e pictóricas, mais similates à arte original da região da polinésia antes da interferência dos asiáticos, dos missionários europeus e dos norte-americanos.


agora você imagina comigo a belezura que era fazer compras em brechó nos anos 80: se durante a década de 2010 a gente teve muito acesso a roupas dos anos 2000, dos anos 90 e dos anos 80, seguindo essa lógica de 30 anos para trás, nos anos 80 dava pra achar, com certa facilidade, coisas até dos anos 50! sem contar as belezuras dos anos 60 e 70 que não consigo nem começar a imaginar.


e taí, nesse momento perfeito do espaço-tempo, madonna nos anos 80 com um vestido tiki dos anos 50, carregando em seu corpinho de diva pop alguns séculos de história da humanidade. é responsa demais, bicho. ainda bem que é a madona e ela segura essa tarefa como poucas pessoas nesse mundão de meudeus.

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