• melody erlea

uma viagem no tempo e uma elegia a pierre cardin

pierre cardin é meu estilista favorito.



ele não tava produzindo grandes coleções e roupas chocantes nos últimos anos, e das grifes francesas tradicionais ele definitivamente é o menos hypado. ele não participava das semanas de moda e não fazia desfiles e espetáculos que eram reproduzidos ad infinitum pelo instagram. ele era meio que uma versão internacional do alexandre hercovitch e suas coleções de roupa de cama - pierre cardin, desde os anos 70, produzia de tudo: telefones, secadores de cabelo, lençóis e edredons, carteiras, ele basicamente licenciou todo tipo de produtos com o nome dele. seu apelido era "napoleão das licenças".


que o mais visionário estilista do eixo itália-frança tenha que ter enriquecido e continuado seus negócios até os 98 anos não por causa de suas roupas, e sim por causa de uma infinidade de produtos aleatórios sendo vendidos de maneira acessível desde os anos 70, é uma curiosidade mas não uma surpresa: o homem que inventou o pret-a-porter só poderia estar destinado a aplicar a mesma lógica a todo o resto das coisas possíveis de vender.



cardin não estava preocupado com luxo, exclusividade, ostentação: ele acreditava na democracia monetária do capitalismo, ele enxergava um mundo em que todos podiam ter acesso a itens de qualidade, ainda que manufaturados em massa. um mundo em que a moda não fosse exclusiva das passarelas e seus poucos frequentadores, mas que pudesse ser reproduzida em escala maior, a preços razoáveis, pra todo mundo comprar.


uma utopia capitalista, tão pautada na igualdade de acesso e poder aquisitivo de todos ao redor do mundo, uma coisa tão absurda que era quase comunista. tão absurda que o clubinho exclusivo de estilistas de haute couture precisou expulsá-lo: onde já se viu, moda socialista? moda que todo mundo pode comprar? moda que não nos divide claramente entre os que podem e os que não podem? (nada disso é comunista, claro. cardin viveu de vender porrinha aleatória ao redor do mundo, é o capitalismo em seu primor).


a verdade é que cardin era mais artista e mais esperto que todo o resto, e viu décadas atrás o que o resto das grifes só reparou há pouco tempo: que o mercado de verdade é todo mundo, não só os ricos. e que quem conseguisse vender pra todo mundo, não só pros ricos, é quem teria o poder real - mesmo que seu nome fosse, aos poucos, sendo afastado dos holofotes.


me diz: alguém que tá vendendo secador de cabelo pra salão de beleza precisa dos holofotes da moda? alguém que vende sapato, aluga imóveis, produz baralhos, tapetes, picles (sério), luminárias.... alguém que conseguiu tudo isso sozinho, sem parcerias, sem vender sua marca ou seu nome - essa pessoa precisa de 4 coleções por ano sendo desfiladas em paris?


é claro que não.


pierre cardin desafia a lógica elitista da moda de alta costura, e foi o único que sobreviveu intacto às dinâmicas ferozes do mercado: fazia o que queria, da maneira que queria, e manteve seu império até o último dia de suas vidas.


alguns argumentam que ele foi esquecido pela moda e pela cultura pop, injustiçado por suas escolhas de popularizar a acessibilidade a produtos de moda com etiqueta de grife, colocado no limbo em que se colocam pessoas à frente de seu tempo, visionárias incompreendidas, gente que causa furor demais. mas a real é que ele só começou a fazer 50 anos antes o que todo mundo faz hoje: licenciamento de produtos, coleções acessíveis, "fast fashion".


isso é que é futurismo de verdade: quando a pessoa enxerga o futuro e tem a coragem de já começar a fazer. e essa visão que ele aplicou aos negócios foi a mesma que ele aplicou a sua arte: ele mesmo dizia que gostava de fazer roupas pra épocas que ainda não tinham acontecido, e foi esse um de seus maiores feitos.


pierre cardin transformou a moda desde antes de ser dono de sua própria maison: ele auxiliou na criação na coleção de 1948 de christian dior - a que seria nomeada "o new look" pela revista harpers bazaar e virou a silhueta mandatória da moda da década de 1950. um dos looks mais icônicos da coleção, composto por saia midi volumosa e um blazer acinturadíssimo, com as ancas quadradas e protuberantes como os vestidos de maria antonieta, é criação não de dior, mas de cardin.


o formato estrutural do blazer - que é produzido até hoje pela dior - meio arquitetônico, com uma pegada no passado mas um temperinho futurista, já era um exemplo do tipo de visão que ele queria trazer para moda.


eu conheci o pierre cardin aos 14 anos, quando ganhei da minha vó um trench coat original do designer, comprado nos anos 60. ele carrega algumas características típicas, como a atenção ao design de detalhes, como os bolsos e a faixa do casaco, que trazem a geometria da década (outra tendência inaugurada por cardin) e o ecentrismo da cor, da posição dos detalhes, do movimento da roupa. pega essas linhas diagonais nos bolsos e na gola e me diz se isso não é uma obra de arte:



foi esse casaco verde que me abriu ao mundo do pierre cardin, que traduz na sua moda futurística todo um zeitgeist da década de 60, da exploração espacial, da busca por vida alienígena, pelas possibilidades de mundos e modas para além do planeta terra. muito da moda de obras de ficção científica, de barbarella a jetsons, passando por 2001 uma odisséia no espaço, são fruto de uma estética que nasceu dentro da cabeça de pierre cardin - uma moda que brinca com formas geométricas e não apenas as formas do corpo humano, que é prática e agênero, simples de vestir mas bonita de olhar. uma moda inspirada em arquitetura mas também no universo, que remete a visões fantásticas dos clássicos da literatura de ficção científica ao mesmo tempo que veste as pessoas reais que estariam vivendo essas aventuras.


moda para pessoas reais, em qualquer ponto no tempo e no espaço, essa era a visão de pierre cardin. sua coleção cosmocorpos, de 1964, é o resumo dessa visão colocado em prática, e é essa coleção que até hoje permeia nossas ideias de civilizações futuras, espaciais, extraterrestres.



pierre cardin é um desses poucos artistas que consegue mesclar fantasia com realidade de um jeito magnífico, acessível, divertido. o jeito que ele reinterpretou referências da arquitetura chinesa para criar seu terno pagoda fugiu da apropriação cultural e inaugurou um novo tipo de moda espacial-futurística-alternativa.


cardin era fascinado com a estética do japão e da china, e, além dos templos pontudos, tirou inspiração das vestimentas chinesas, especialmente a gola mandarim, para sugerir um novo jeito de vestir para o homem, dispensando a gravata e a necessidade de golas passadas em camisas e ternos. o colarinho comum foi substituído pela rigidez e praticidade da gola mandarim, que cardin lançou na europa com o nome "cilinder suit" (terno cilíndrico). até os beatles usaram (num styling que eu, particularmente, acho estranho. sei que eles tavam nessa fase da gravatinha mod, mas todo o objetivo do cilinder suit é ser usado sem gravata, abertinho. mas segue lendo que você vai ver que ídolo brasuca usou melhor e com mais intenção e significado do que os beatles, só aguarde).



não pegou na moda mainstream, mas virou referência de haute couture pra jovens estilistas e acabou sendo assimilada pela ficção científica mais recente - é o uniforme do pessoal da star trek sob o comando de picard. e sabe quem usou recentemente uma jaqueta diretamente inspirada nessa proposta de pierre cardin?


ele mesmo, nosso muso dos trabalhadores, nosso blogueiro do proletariado:



a designer da jaqueta, beatriz canedo patiño, estudou design em paris e é discípula de pierre cardin. adicionou ao design do terno cilíndrico o uso de tecidos originais da bolívia (principalmente lã de alpaca) e os bordados típicos regionais e virou a favorita de evo morales - e agora de lula. significa que lula está vestindo um design boliviano inspirado por um design francês criado por um estilista italiano inspirado nas vestes tradicionais chinesas. nunca a expressão "o mundo da voltas, queridinha" fez tanto sentido.


são essa mesma golinha sem gravata e ombros pontudos que passaram a ser SUPER assimilados no imaginário de figurinos futuristas e espaciais, e pra mim, sendo quem eu sou, a eterna blogueirinha imatura, nada melhor do que ver todos eles ali, em formato de desenho animado, na família do futuro mais clássica do século XX, os jetsons.


todo o figurino do desenho faz uma clara referência à estética de cardin, mas o ápice é um episódio em que ele é realmente citado!



jane jetson tá se arrumando pra um evento, mandando um facetime com uma amiga, e mostra o luquinho novo: "é um pierre martian original", diz ela, com o mesmo orgulho que eu digo, sempre que visto meu trench coat verde: é um pierre cardin original dos anos 60!



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