• melody erlea

high fidelity, a série: fiel às suas origens e socialmente consciente


eu tô no aguardo da nova versão de high fidelity - dessa vez em série, pra gente maratonar, e com zoe kravitz no papel de rob gordon - desde novembro do ano passado. desde que descobri o remake já criei teorias e levantei vários questionamentos, do tipo: a nova rob vai fumar o eventual cigarrinho, como o rob do livro e do filme? ou: quantos looks incríveis e perfeitos veremos zoe kravitz vestindo? as respostas são, respectivamente: sim e todos. isso é um spoiler? já comecei esse texto dando spoiler? talvez sim, talvez não: quem realmente gosta de high fidelity e se identifica, de verdade, com rob gordon, sabia que ela ia fumar e sabia que os looks seriam incríveis e perfeitos.


mas pra não começarmos incomodando a comunidade da interwebs: esse texto pode e muito provavelmente terá alguns spoilers de high fidelity, série da hulu que estreou dia 14 de fevereiro.

mas, de novo: se você leu o livro de nick hornby e viu o filme com juhn cusack, o único spoiler é que a série conseguiu atualizar a história incrivelmente bem - tem diversidade racial e sexual, menos machismo e menos foco na narrativa do cara branco - sem perder um pingo da atmosfera que faz dessa história tão icônica.


rob, ainda que tenha tido seu gênero mudado, segue sendo o que queremos que ela seja: meio babaca, meio rude, honesta demais com os outros pra evitar ser honesta com ela mesma, incapaz de atribuir o que considera como suas falhas a escolhas que ela mesmo tomou - é sempre por causa dos outros, principalmente a lista dos 5 ex no top términos mais dolorosos. como no livro e no filme, rob acha que seus relacionamentos estão fadados ao desastre não por como ela age, mas por causa dos traumas amorosos que outras pessoas lhe afligiram.

a diferença gritante é em como ela expressa e dá voz a suas frustrações e em como ela se lembra desses relacionamentos passados. muito das amarguras do rob original - do livro e do filme - soavam como reclamações de um cara que não conseguia o que achava que as mulheres precisavam lhe dar. teve uma namorada que ele largou porque ela era virgem e não quis dar pra ele - e quando a reencontra anos depois e descobre que, por causa desse pé na bunda ela, deu pro primeiro cara que apareceu, sem ter vontade, por obrigação, e isso a traumatizou por uma grande parte da sua vida.... ele fica feliz. zero empatia pelo papel em que ele a colocou - o de precisar satisfazer o desejo de um cara antes de cumprir com o que ela se sente a vontade - e só alívio por não ter ele sido o que saiu na pior.


no livro e no filme rob está sofrendo pelo seu recente término com laura - que ele constantemente tenta ofender com slutshaming. e por quê? porque ela tá num relacionamento estável com um cara que ele não aprova. enquanto isso, quem flerta com absolutamente qualquer mulher que cruza seu caminho é rob - e ninguém tenta o fazer sentir mal por causa disso, ele tá só lidando com o coração partido da maneira que pode. laura, a ex, recentemente trocou de emprego e, por isso, de look: o cabelo que era rosa ficou loiro e as roupas encaretaram. esses sinais de amadurecimento e de crescimento profissional incomodam rob profundamente - ele parece a querer num emprego instável, sem grandes perspectivas além do relacionamento com ele.

no geral, toda a babaquice de rob parte de um posicionamento de poder e posse em relação às mulheres - o que, na série, desaparece e dá lugar a uma protagonista narcisista e babaquinha, sim, mas sem o discurso engessado machista dos anos 90. ela não odeia um ex porque ele não quis trepar com ela - essa premissa nem faz muito sentido quando a gente inverte os gêneros, né? mas ela se sente, sim, bem e feliz quando descobre que a vida atual de um de seus ex está difícil: um filho com quem ele não consegue se conectar, uma esposa que ele não ama, um aparente problema com alcoolismo. a rob de zoe kravitz, bem do jeitinho que a gente esperaria, demonstra ter zero empatia com os problemas dos outros e nem sequer escutar o que as pessoas ao seu redor dizem.


ela tá perdida numa narrativa própria de heartbreak, amores impossíveis e almas gêmeas e ignora que pessoas que convivem com ela também possam estar sofrendo ou lutando para alcançar objetivos importantes.

e é aí que entra algo que filme e livro foram incapazes de trazer: a mudança de ponto de vista. eu já tinha notado essa tendência quando assisti daybreak - outra série moderninha nadando na onda da quebra da 4ª parede, estratégia que muita gente acredita estar datada mas, quando bem feita, pohan, me pega toda vez. day break me ganhou não necessariamente na quebra da 4ª parede, mas na variação da perspectiva. o que a gente acha que é uma série sobre um adolescente comum se virando no apocalipse vira uma série sobre a mina que é a princesinha do colégio mostrando o que é realmente viver a vida dela, depois vira uma série sobre um diretor de escola meio loser e o que ele faz pra sobreviver depois que o mundo acaba... a gente conhece várias versões da história e tem a chance de se identificar com vários dos personagens, inclusive os supostos vilões, ao invés de estabelecer aquela velha dinâmica de bonzinho versus malvado.


pois high fidelity joga essa mesma carta, e na hora certa: bem quando a gente já cansou um pouco dessa persona egocêntrica da rob tomando conta de todas as conversas e de todos os conflitos, PÁ, começa um episódio e quem tá olhando nos nossos olhos falando com a gente ali do outro lado da tela não é a rob. é um alívio, de repente lembrar que, sim, existem muitos universos em cada pessoa e nós somos protagonistas apenas da nossa própria vida. é um lembrete pra não sermos como rob - não adianta ser socialmente consciente dos limites de gênero, sexualidade e de cor de pele se você não consegue se colocar no lugar dos seus próprios amigos e ouvi-los às vezes.

se rob aprende ou não essa lição não cabe a mim dizer (isso sim seria spoiler), mas aqui estão os fatos importantes: rob fuma, sim!, o eventual cigarrinho, hábito que ela está tentando encerrar mas nem sempre é fácil. além do cigarrinho rob fuma o símbolo de uma geração, o eventual beckinho, que lá nos anos 90 aparecia mais pra caracterizar personagens stoners chapadões e sem ambições, mas agora em 2020, a bem da verdade, já aparece nas mãos de basicamente todo mundo, que nem na vida real.


principalmente do jovem indie de 30 e poucos anos ouvidor de música alternativa e fazedor de listas de top 5.


ilustrando esse texto tão as interpretações que eu fiz de alguns dos looks de rob gordon na série. as fotos na rua são do will cavagnolli.


e, de bônus, um fun fact: muito do figurino de rob gordon na série saiu do próprio guarda-roupa de zoe kravitz, tipo a camiseta cinza dos beastie boys que tá na primeira foto lá no topo do texto. ó ela usando a camiseta na vida real, e a minha versão do visu (eu já tinha fotografado a única camiseta dos beastie boys que tenho - e que nem é minha, peguei emprestada de um amigo especialmente pra fazer essas fotos - pra montar os visus da série, então pra esse look decidi mudar a banda e manter a paleta: mini de couro e camiseta cinza)


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