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  • melody erlea

o incrível novo universo de wandinha


a estética gótica está de volta ao mainstream! e quem tá liderando a procissão é a criança gótica original: a única e maravilhosa wandinha addams. e aqui a gente não tá falando de qualquer estética gótica mainstream não, mas aquela que firmou suas raízes em toda uma geração de crianças e adolescentes noventistas: a estética gótica tim burton.


o retorno de wandinha e burton tem causado um grande fuzuê pela interwebs, tá todo mundo fissurado. mas não é a primeira vez que a personagem fica marcada na história pop: a mesma geração de crianças e adolescentes noventistas que assistiu a edward mãos de tesoura também assistiu à inesquecível sequência de filmes da família addams que tinha angelica houston como morticia e uma brilhante cristina ricci no papel de wandinha.


ricci faz parte do elenco da nova série, e ela não é o único aceno às versões anteriores de família addams: há muitas cenas e detalhes que fazem alusão e prestam homenagem às wandinhas passadas - e, sim, uma delas é aquela cena que até quem não assitiu a série já deve ter visto por aí:



essa cena já tá marcada na história do audiovisual, e o mais legal é que ela tem muitas histórias embutidas em si! primeiro que a coreografia foi criada pela própria jenna ortega, alguns dias antes da gravação, e faz referência a um conjunto maravilhoso de artistas, vídeos e coreógrafos! uma delas, sobre o qual jenna falou mais longamente em uma entrevista, é siouxsie sioux e o clipe de happy house, que além de ter inspirado alguns dos passos da estranha dança de wandinha, tem uma estética bem tim burtonesca, se liga:



ortega também usou como referência vídeos de dois grandes coreógrafos: the rich man's frug, de bob fosse (que também é a inspiração do clipe de get me bodied, da beyoncé) e a coreografia de denis lavant, dançarino e coreógrafo francês, pra modern love do david bowie (esse vídeo e essa coreografia são estarrecedores de lindos, com a pegada meio mórbida que a gente sabe que wandinha iria curtir). e, não sei vocês, mas eu vejo um tiquinho de thriller do michael jackson com um toque de backstreet's back, cês num acham?



e a coreografia também se inspira em cenas de versões antigas da família addams!


e a série de 1964 não é a única homenageada na versão de tim burton - há dois momentos que fazem alusão ao filme de 1993, família addams 2. no episódio 2 de wandinha há uma corrida de canoas num lago, enquanto no filme há uma cena no lago do acampamento, em que pessoas fazem canoagem enquanto wandinha e sua rival amanda buckman treinam primeiros socorros.



poderia até parecer pira minha, mas o filme é aludido novamente no episódio 3, em que wandinha é obrigada a se vestir de peregrina e oferecer mostras de chocolate aos visitantes, e faz questão de discursar sobre a origem do doce oferecido: trabalho escravo nas plantações de cacau do brasil. no filme de 93, wandinha estava vestida de indígena, e estraga a peça do dia de ação de graças ao sair do script e fazer sua personagem e seus colegas indígenas se vingarem da exploração, escravização e apagamento de seu povo nas mãos dos peregrinos. a wandinha já era politizada lá no começo dos anos 90, quem precisa de diva maior do que essa?


e diva por diva, cristina ricci trouxe a wandinha pro mundo da moda, eternizando um visual que nem o próprio charles addams, criador dos cartuns originais da família addams em 1938, poderia imaginar (mais fácil imaginar morticia, sensual e sombria, como fashion icon do que a criança de trancinhas). até porque a ideia de que wandinha se veste de preto veio do fato de que os quadrinhos eram impressos em preto e branco no new yorker. duas versões animadas, de 1973 e de 1992, mostram a wandinha de cor-de-rosa e azul, respectivamente. no entanto, desde a 1a adaptação para tv, que também era transmitida em preto e branco, o look wandinha meio que se firmou na imaginação do público: vestido preto, golinhas brancas, cabelo dividido ao meio com duas tranças compridas.



a atualização do visual da personagem para a nova série ficou nas mãos de colleen atwood, figurinista ganhadora de 4 oscars e com um longo currículo de filmes incríveis, vários dos quais em parceria com tim burton (peixe grande, a lenda do cavaleiro sem cabeça e sweeney todd são alguns deles).


a franjinha deixa o cabelo um pouco mais jovem e menos com aquela cara vitoriana, e, embora a figurinista tenha feito questão de vestir wandinha com uma versão do seu clássico vestido+golinha no 1o episódio, a personagem desfila luquinhos modernos com tênis de plataforma, moletons e jaquetas de couro, listras e estampas psicodélicas-geométricas em preto e branco (bem tim burton) e o vestido de tule que ela compra num brechó para ir ao baile da escola - mas não se enganem, o vestido é da grife alaïa, exclusivíssimo (nem tem a venda, era só esse mesmo, que colleen atwood viu na vitrine da boutique da grife em londres e comprou na hora, já imaginando-o na vitrine da loja vintage onde wandinha o encontraria).



mas não é só de wandinha que sobrevive o figurino dessa série! vários outros personagens tem looks magníficos e importantes pra construção da história. a diretora weems, do internato onde wandinha estuda, tem um visual inspirado na atriz tippi hendrin no filme os pássaros, de hitchcock, elegante e sinistro ao mesmo tempo. a roommate da wandinha, enid, complementa a amiga com um guarda-roupa colorido e fofo, com bastante textura e estampa. e até morticia recebeu um vestido modernizado, com detalhes em couro na costela e cintura e um frufruzinho nas mangas, todo um charme.



e embora eu esteja levemente obcecada pela estética da wandinha, quem me chamou mesmo a atenção, de primeira, foi gomez addams, interpretado pelo lendário luis guzman (pra mim o eterno jacopo em o conde de monte cristo). eu já gostei de ele ser muito mais parecido com o gomez original dos quadrinhos, que era mais baixo que a morticia e mais gordo do que o retrato de todas as outras versões (hollywood gosta de apagar os gordos, igual o mundo do rock).


apesar de usar sempre a mesma roupa - ou quase sempre, com exceção de situações extenuantes que o obrigam a trocar de look - o gomez de luis guzman exala estilo e tem uma história que nos mostra que ele é muito mais do que aparenta ser. guzman devolve a latinidade a um gomez que sempre foi meio white-washed, o apresentando com brilhantinha no cabelo, dentes amarelados e um fortíssimo sotaque, além de um passado misterioso e meio criminoso.


o gomez, como bem li no perfil do stylist e colecionador vintage johnny valencia, que fez o styling de guzman para um photoshoot promocional da série, é uma espécie de pachuco gótico. ele pode não usar o típico zoot suit que se tornou símbolo da comunidade hispânica em los angeles nos anos 1930 e 1940, mas ele exala a vibe pachuco - o que faz um certo sentido se pensarmos que a cultura pachuca teve seu auge na década de 40, e a família addams teve sua primeira onda de popularidade na mesma época. não dá pra dizer que gomez não era um homem latino nos estados unidos na era exata dos pachucos.


os pachucos eram uma comunidade latina vivendo nos estados unidos, principalmente em los angeles mas não apenas. eram considerados delinquentes e imorais pela polícia, governo e "famílias tradicionais", e seu tradicional terno largo, conhecido como zoot suit, foi inclusive proibido, como símbolo de delinquência e desperdício de recursos - já que os estados unidos entravam na 2a guerra mundial, todos os recursos eram desviados para o esforço de guerra e uma nova cartilha de moda, que indicava o que era permitido ou não produzir e vender, era distribuída para os cidadãos. nas novas regras, economia de tecido era a lei, e todo tipo de adorno ou modelagem que desperdiçava matéria-prima devia ser evitado.



a real é que os pachucos - e pachucas - representaram um tipo de resistência ao status quo da cultura e estética branca norte-americana, assim como a seus valores moralistas e cristãos. tanto os homens quanto as mulheres usavam os ternos, que eram oversized e encorpados, e saíam para dançar, acompanhadas ou não. escandaloso pruma sociedade conservadora em que mulheres não saíam sem os maridos e jamais usavam calças. e, o mais importante, eles não abriam mão de sua cultura, seus hábitos e gostos, seu idioma, suas músicas, suas danças, e, assim, apesar de serem imigrantes orgulhosos de poder começar uma vida nos estados unidos, não se dobravam ao que a cultura americana dizia que eles deviam ser.


não é meio como o gomez, e toda a família addams, faz questão de ser? de uma maneira ou outra, ele assegura essa tradição de ser quem é, sem a menor vergonha do que os outros possam pensar ou tentar impor. e, nessa versão século XXI dos addams, ele não é apenas um homem com afinidade pela escuridão num mundo em que todos preferem a luz do dia - gomez é, também, um homem latino vivendo num mundo branco. e tem orgulho disso.

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